Friday, March 14, 2008
Um império asteca luta para continuar de pé
O que fazer para que a mais tradicional casa de espetáculos de Brasília não viva só do passado, ainda que glorioso?
O então Teatro Nacional de Brasília, hoje Teatro Nacional Claudio Santoro, nome que lhe foi dado mediante a Lei nº 378, de 1º de setembro de 1989, promulgada por Nelson Carneiro, presidente do Senado Federal, em homenagem ao maestro e compositor considerado um pioneiro das artes na capital da República, surgiu dos devaneios sãos de Oscar Niemeyer, perdido na infinita solitude do Planalto Central quando o projetou. Os cálculos da pirâmide sem o vértice superior, característica indefectível da arquitetura asteca, foram feitos por Joaquim Cardozo, que nas poucas horas vagas abandonava as toneladas de concreto armado e rendia-se à leveza da poesia diletante. As fachadas leste e oeste reúnem 3.608 vidros e os cubos brancos nas paredes norte e sul, intencionalmente disformes, foram desenhados por Athos Bulcão e passam de centenas, constituindo a maior obra de intervenção urbana do artista plástico carioca, radicado em Brasília desde a década de 1960, responsável também pelos azulejos e mosaicos com figuras que remetem a pombas nos sanitários do Parque da Cidade Sarah Kubitschek e na Igreja Nossa Senhora de Fátima, a Igrejinha, entre as quadras 107 e 108 sul. Niemeyer teve ainda a colaboração do italiano Aldo Calvo, pintor, cenógrafo e técnico de teatro, para que o gigante tomasse corpo e se erguesse do chão vermelho do centro da savana brasileira, um processo lento e interrompido em várias ocasiões.
As obras começaram em 30 de julho de 1960, faltando cinco meses e um dia para que Juscelino Kubitschek de Oliveira cedesse o lugar a Jânio Quadros no Palácio do Planalto. Brasília era administrada por Israel Pinheiro, ocupante do posto de prefeito, há muito extinto, e a Novacap —Companhia de Urbanização da Nova Capital— foi a empresa competente pela conclusão de todas as etapas da construção, cuja estrutura ficou pronta exatos seis meses depois, em 30 de janeiro de 1961.
Entretanto, o Teatro foi alijado da magnitude que tinha inicialmente e ficou congelado no deserto do coração do Brasil, sendo os trabalhos parcialmente retomados em 1966. A 21 de abril daquele ano, no quinto aniversário da infante Brasília, foi inaugurada a Sala Martins Pena, em honra do autor de Juiz de paz na roça e Quem casa quer casa, que teve de ser fechada em 4 de setembro de 1976, para que recomeçassem as obras definitivas, acabadas a 21 de abril de 1981, Brasília tendo atingido já a maioridade. Nessa fase, o arquiteto Milton Ramos tomou a frente, encomendando ao paisagista Roberto Burle Marx o projeto dos jardins e ao técnico russo Igor Sresnewski o tratamento acústico. A Casa foi reaberta em 6 de março de 1979, com as todas as salas, mas problemas que exigiam imediata solução fizeram com que novos reparos fossem providenciados, em novembro do mesmo ano. O anexo do Teatro foi construído nessa época e abriga a administração, a sede da Fundação Cultural, hoje Secretaria de Cultura, salas de ensaio e galerias, e inaugurado a 24 de junho de 1981, pelo governador Aimé Lamaison. A Sala Villa-Lobos foi aberta ao público em 6 de março de 1979, com solenidade em que Claudio Santoro regeu composições do artista cujo sobrenome batizou o espaço, Heitor Villa-Lobos. A Martins Pena só foi reaberta em 23 de maio de 1997, quase 21 anos depois de cerradas suas portas, com apresentações de Altamiro Carrilho, Zezé Gonzaga, Paulo Sérgio Santos e o grupo Choro Livre, com o número Pixinguinha: cem anos de música. Na reabertura, desta vez da Villa-Lobos, após mais uma reforma, a 4 de setembro de 1997, marcaram presença Gal Costa, Maria Bethânia, o Balé Castro Alves, a bailarina e coreógrafa Deborah Colker, Simone e Ivan Lins. Além da Martins Pena e da Villa-Lobos, há a Sala Alberto Nepomuceno, que faz preito ao artista plástico, inaugurada em 8 de março de 1979. Por ser a que recebe menos divulgação, é a menos conhecida, conseqüentemente.
The show must go on
Depois de acolher um céu de estrelas nacionais, como o pianista alagoano Joel Bello Soares, o primeiro a tocar para uma audiência expressiva; a atriz Dulcina de Moraes, que em campanha para consolidar sua fundação e erigir seu teatro, uniu-se a senhoras do jet set brasiliense e estreou a peça norte-americana Tia Mame; Galuce Rocha; Zbigniew Ziembinski; Márcia Haydé; Márika Gidali, com seu Stagium; o grupo Corpo; Caetano Veloso; João Gilberto e muitas outras pratas da casa, passaram pelo Teatro Nacional Claudio Santoro celebridades internacionais, como Maria Casaré, Susanne Linke, Kazuo Ohno, Antonio Márquez, Mercedes Sosa, Yma Sumac, os balés russos Bolchói e Kírov, o balé da Ópera de Paris e Astor Piazzola. Até a diva Rita Hayworth abalou-se de Hollywood e veio participar de um baile de Carnaval quando o Teatro era ainda um esqueleto de alvenaria e vigas de aço, nos anos 60.
O Teatro Nacional continua a brilhar, mesmo que sem a intensidade de outrora. As renitentes infiltrações e a revitalização muito necessária dos trabalhos de Athos Bulcão são as dores-de-cabeça do diretor da instituição, B. de Paiva, que também se inquieta com as obras envolvendo as pistas que ligam os eixos sul e norte, no trecho popularmente conhecido como Buraco do Tatu, entre a Estação Rodoviária do Plano Piloto e o Teatro, que afastaram ainda mais o público. “Agora que a poeira começa a assentar”, desabafa, em frase que deveria ser apenas uma metáfora, mas é quase a descrição literal do transtorno que instalara-se por ali. O mais recente grande espetáculo em cartaz no Teatro Nacional, Dom Quixote de lugar nenhum, cujo papel-título foi representado pelo ator global Edson Celulari, rendeu à bilheteria arrecadação acima das expectativas, segundo o subsecretário de Cultura, Alexandre Menegalli, mas a Sala Villa-Lobos, na qual foi encenado não chegou a lotar. O que só prova que o embate do Teatro, competindo em franco desequilíbrio com outros espaços, financiados por empresas públicas com participação de capital privado, como o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e o Teatro da Caixa, mantido pela Caixa Econômica Federal, é como o do personagem de Miguel de Cervantes: um esquálido cavaleiro sem montaria lutando contra titânicos moinhos de vento.
Os fantasmas da ópera
“O mundo é um teatro”, escreveu William Shakespeare. E não há ambiente mais propício à difusão de mitos e lendas que esse mundo, misto de encantamento e concretude, realidade e ficção, reduto da magia em meio à dureza do concreto, mesmo o armado, da vida que cerca a todos. Com o Teatro Nacional Claudio Santoro não é diferente. Funcionários garantem já ter ouvido vozes, em uma noite de lua cheia. O burburinho insólito viria do palco da Sala Villa-Lobos e seria o maestro Santoro materializando-se de algum modo. Acontece que o próprio Claudio Santoro já especulava sobre histórias sobrenaturais que protagonizaria depois de morto com a mulher, a ex-bailarina e coreógrafa Gisèle Santoro, que não mais se molesta com a bazófia. Além de Claudio Santoro, também freqüentariam os bastidores do teatro Dulcina de Moraes e agora Paulo Autran. Sombras, nada mais.
Muitos outros relatos fantasiosos rondam a atmosfera do Teatro Nacional, como o de uma música que saía de um dos pianos de cauda usados em um espetáculo. Vigias foram até lá e flagraram o artista: um gato, muito vivo, não se sabe se preto, se divertia com as teclas do instrumento. Gente que teria se perdido pelos corredores e ficado presa até o dia seguinte; um jovem que queria assistir a uma apresentação musical de graça e morreu afogado em um dos espelhos d’água; ou o sumiço de um xale que compunha o figurino de Kazuo Ohno, possivelmente levado por um admirador. Adauto Pires, da Gerência Técnica, um dos servidores mais antigos do Teatro, confirma, em parte, o mexerico: “O povo fala demais”, simplifica, já me conduzindo ao foyer da Villa-Lobos, por onde saio, um pouco saudoso dos tempos áureos do Teatro Nacional Claudio Santoro —que não vivi— e dando de cara com o mar de automóveis e pessoas em caótico deslocamento a caminho da Rodoviária, ansiosas por voltar para casa depois de um dia inteiro de trabalho árduo e pegar o restinho da novela das sete, para em seguida, já de banho tomado e um pouco menos tensas, a das oito, na íntegra. Quiçá a coisa mais parecida com teatro que já conheceram na vida severina que levam sem maiores ilusões que não as dos folhetins televisivos. E que assim as leva aos poucos.
O então Teatro Nacional de Brasília, hoje Teatro Nacional Claudio Santoro, nome que lhe foi dado mediante a Lei nº 378, de 1º de setembro de 1989, promulgada por Nelson Carneiro, presidente do Senado Federal, em homenagem ao maestro e compositor considerado um pioneiro das artes na capital da República, surgiu dos devaneios sãos de Oscar Niemeyer, perdido na infinita solitude do Planalto Central quando o projetou. Os cálculos da pirâmide sem o vértice superior, característica indefectível da arquitetura asteca, foram feitos por Joaquim Cardozo, que nas poucas horas vagas abandonava as toneladas de concreto armado e rendia-se à leveza da poesia diletante. As fachadas leste e oeste reúnem 3.608 vidros e os cubos brancos nas paredes norte e sul, intencionalmente disformes, foram desenhados por Athos Bulcão e passam de centenas, constituindo a maior obra de intervenção urbana do artista plástico carioca, radicado em Brasília desde a década de 1960, responsável também pelos azulejos e mosaicos com figuras que remetem a pombas nos sanitários do Parque da Cidade Sarah Kubitschek e na Igreja Nossa Senhora de Fátima, a Igrejinha, entre as quadras 107 e 108 sul. Niemeyer teve ainda a colaboração do italiano Aldo Calvo, pintor, cenógrafo e técnico de teatro, para que o gigante tomasse corpo e se erguesse do chão vermelho do centro da savana brasileira, um processo lento e interrompido em várias ocasiões.
As obras começaram em 30 de julho de 1960, faltando cinco meses e um dia para que Juscelino Kubitschek de Oliveira cedesse o lugar a Jânio Quadros no Palácio do Planalto. Brasília era administrada por Israel Pinheiro, ocupante do posto de prefeito, há muito extinto, e a Novacap —Companhia de Urbanização da Nova Capital— foi a empresa competente pela conclusão de todas as etapas da construção, cuja estrutura ficou pronta exatos seis meses depois, em 30 de janeiro de 1961.
Entretanto, o Teatro foi alijado da magnitude que tinha inicialmente e ficou congelado no deserto do coração do Brasil, sendo os trabalhos parcialmente retomados em 1966. A 21 de abril daquele ano, no quinto aniversário da infante Brasília, foi inaugurada a Sala Martins Pena, em honra do autor de Juiz de paz na roça e Quem casa quer casa, que teve de ser fechada em 4 de setembro de 1976, para que recomeçassem as obras definitivas, acabadas a 21 de abril de 1981, Brasília tendo atingido já a maioridade. Nessa fase, o arquiteto Milton Ramos tomou a frente, encomendando ao paisagista Roberto Burle Marx o projeto dos jardins e ao técnico russo Igor Sresnewski o tratamento acústico. A Casa foi reaberta em 6 de março de 1979, com as todas as salas, mas problemas que exigiam imediata solução fizeram com que novos reparos fossem providenciados, em novembro do mesmo ano. O anexo do Teatro foi construído nessa época e abriga a administração, a sede da Fundação Cultural, hoje Secretaria de Cultura, salas de ensaio e galerias, e inaugurado a 24 de junho de 1981, pelo governador Aimé Lamaison. A Sala Villa-Lobos foi aberta ao público em 6 de março de 1979, com solenidade em que Claudio Santoro regeu composições do artista cujo sobrenome batizou o espaço, Heitor Villa-Lobos. A Martins Pena só foi reaberta em 23 de maio de 1997, quase 21 anos depois de cerradas suas portas, com apresentações de Altamiro Carrilho, Zezé Gonzaga, Paulo Sérgio Santos e o grupo Choro Livre, com o número Pixinguinha: cem anos de música. Na reabertura, desta vez da Villa-Lobos, após mais uma reforma, a 4 de setembro de 1997, marcaram presença Gal Costa, Maria Bethânia, o Balé Castro Alves, a bailarina e coreógrafa Deborah Colker, Simone e Ivan Lins. Além da Martins Pena e da Villa-Lobos, há a Sala Alberto Nepomuceno, que faz preito ao artista plástico, inaugurada em 8 de março de 1979. Por ser a que recebe menos divulgação, é a menos conhecida, conseqüentemente.
The show must go on
Depois de acolher um céu de estrelas nacionais, como o pianista alagoano Joel Bello Soares, o primeiro a tocar para uma audiência expressiva; a atriz Dulcina de Moraes, que em campanha para consolidar sua fundação e erigir seu teatro, uniu-se a senhoras do jet set brasiliense e estreou a peça norte-americana Tia Mame; Galuce Rocha; Zbigniew Ziembinski; Márcia Haydé; Márika Gidali, com seu Stagium; o grupo Corpo; Caetano Veloso; João Gilberto e muitas outras pratas da casa, passaram pelo Teatro Nacional Claudio Santoro celebridades internacionais, como Maria Casaré, Susanne Linke, Kazuo Ohno, Antonio Márquez, Mercedes Sosa, Yma Sumac, os balés russos Bolchói e Kírov, o balé da Ópera de Paris e Astor Piazzola. Até a diva Rita Hayworth abalou-se de Hollywood e veio participar de um baile de Carnaval quando o Teatro era ainda um esqueleto de alvenaria e vigas de aço, nos anos 60.
O Teatro Nacional continua a brilhar, mesmo que sem a intensidade de outrora. As renitentes infiltrações e a revitalização muito necessária dos trabalhos de Athos Bulcão são as dores-de-cabeça do diretor da instituição, B. de Paiva, que também se inquieta com as obras envolvendo as pistas que ligam os eixos sul e norte, no trecho popularmente conhecido como Buraco do Tatu, entre a Estação Rodoviária do Plano Piloto e o Teatro, que afastaram ainda mais o público. “Agora que a poeira começa a assentar”, desabafa, em frase que deveria ser apenas uma metáfora, mas é quase a descrição literal do transtorno que instalara-se por ali. O mais recente grande espetáculo em cartaz no Teatro Nacional, Dom Quixote de lugar nenhum, cujo papel-título foi representado pelo ator global Edson Celulari, rendeu à bilheteria arrecadação acima das expectativas, segundo o subsecretário de Cultura, Alexandre Menegalli, mas a Sala Villa-Lobos, na qual foi encenado não chegou a lotar. O que só prova que o embate do Teatro, competindo em franco desequilíbrio com outros espaços, financiados por empresas públicas com participação de capital privado, como o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e o Teatro da Caixa, mantido pela Caixa Econômica Federal, é como o do personagem de Miguel de Cervantes: um esquálido cavaleiro sem montaria lutando contra titânicos moinhos de vento.
Os fantasmas da ópera
“O mundo é um teatro”, escreveu William Shakespeare. E não há ambiente mais propício à difusão de mitos e lendas que esse mundo, misto de encantamento e concretude, realidade e ficção, reduto da magia em meio à dureza do concreto, mesmo o armado, da vida que cerca a todos. Com o Teatro Nacional Claudio Santoro não é diferente. Funcionários garantem já ter ouvido vozes, em uma noite de lua cheia. O burburinho insólito viria do palco da Sala Villa-Lobos e seria o maestro Santoro materializando-se de algum modo. Acontece que o próprio Claudio Santoro já especulava sobre histórias sobrenaturais que protagonizaria depois de morto com a mulher, a ex-bailarina e coreógrafa Gisèle Santoro, que não mais se molesta com a bazófia. Além de Claudio Santoro, também freqüentariam os bastidores do teatro Dulcina de Moraes e agora Paulo Autran. Sombras, nada mais.
Muitos outros relatos fantasiosos rondam a atmosfera do Teatro Nacional, como o de uma música que saía de um dos pianos de cauda usados em um espetáculo. Vigias foram até lá e flagraram o artista: um gato, muito vivo, não se sabe se preto, se divertia com as teclas do instrumento. Gente que teria se perdido pelos corredores e ficado presa até o dia seguinte; um jovem que queria assistir a uma apresentação musical de graça e morreu afogado em um dos espelhos d’água; ou o sumiço de um xale que compunha o figurino de Kazuo Ohno, possivelmente levado por um admirador. Adauto Pires, da Gerência Técnica, um dos servidores mais antigos do Teatro, confirma, em parte, o mexerico: “O povo fala demais”, simplifica, já me conduzindo ao foyer da Villa-Lobos, por onde saio, um pouco saudoso dos tempos áureos do Teatro Nacional Claudio Santoro —que não vivi— e dando de cara com o mar de automóveis e pessoas em caótico deslocamento a caminho da Rodoviária, ansiosas por voltar para casa depois de um dia inteiro de trabalho árduo e pegar o restinho da novela das sete, para em seguida, já de banho tomado e um pouco menos tensas, a das oito, na íntegra. Quiçá a coisa mais parecida com teatro que já conheceram na vida severina que levam sem maiores ilusões que não as dos folhetins televisivos. E que assim as leva aos poucos.
