Wednesday, February 11, 2009
Poema do dia 2 - Todo quase
Tenho a impressão
De que já rodei o mundo inteiro;
Estou cansado, o ar me falta.
Experimento o gosto amaro
De um amor perverso que me arruína,
Que me entorpece,
Que me faz deixar
De ser quem sou,
Que mina-me as forças, o moral e a moral
E por fim mostra-me
Um outro homem,
Um completo estranho,
Diante do espelho.
Se ao menos
Você se afastasse,
Se ao menos
Eu me pudesse distanciar.
Mas, ao contrário, ao menor sinal
De que vou ser notado, de que me vai pousar em cima
Esses imensos olhos verdes
Abro os braços para você
E permito-me a ilusão sincera,
A ilusão daqueles
Que já levaram muito tombo
E sabem que, mais cedo ou mais tarde
(Que seja mais tarde!)
Serão desprezados.
E sou desprezado.
Mais cedo do que pensei.
Como é possível
Uma criatura que é tanto amor
Viver pelos cantos,
Mendigando um simples olhar,
Sem você, sem um bem,
Sem ninguém que lhe diga
Aquilo, aquela coisa tão simples,
Aquelas palavras demasiado prosaicas,
Cruzar mil vezes uma estrada
E não conhecer essas paragens?
Corcel selvagem
Que não se furta a bom galope,
Escoiceia, corcoveia,
Não se deixa domar em tempo algum,
Vai até a lua
Ainda que não seja necessário,
Dá-se por completo,
Esfalfa-se, corre muito,
Mas sem saber para onde,
E com que propósito,
Ao fim de seu ânimo
Empreende o dobro de seu vigor
Para voltar aos campos planos, serenos
Que tanto contrastam
Com o barro do qual foi feito,
Para que se sinta novamente seguro,
Mesmo que sozinho.
De que já rodei o mundo inteiro;
Estou cansado, o ar me falta.
Experimento o gosto amaro
De um amor perverso que me arruína,
Que me entorpece,
Que me faz deixar
De ser quem sou,
Que mina-me as forças, o moral e a moral
E por fim mostra-me
Um outro homem,
Um completo estranho,
Diante do espelho.
Se ao menos
Você se afastasse,
Se ao menos
Eu me pudesse distanciar.
Mas, ao contrário, ao menor sinal
De que vou ser notado, de que me vai pousar em cima
Esses imensos olhos verdes
Abro os braços para você
E permito-me a ilusão sincera,
A ilusão daqueles
Que já levaram muito tombo
E sabem que, mais cedo ou mais tarde
(Que seja mais tarde!)
Serão desprezados.
E sou desprezado.
Mais cedo do que pensei.
Como é possível
Uma criatura que é tanto amor
Viver pelos cantos,
Mendigando um simples olhar,
Sem você, sem um bem,
Sem ninguém que lhe diga
Aquilo, aquela coisa tão simples,
Aquelas palavras demasiado prosaicas,
Cruzar mil vezes uma estrada
E não conhecer essas paragens?
Corcel selvagem
Que não se furta a bom galope,
Escoiceia, corcoveia,
Não se deixa domar em tempo algum,
Vai até a lua
Ainda que não seja necessário,
Dá-se por completo,
Esfalfa-se, corre muito,
Mas sem saber para onde,
E com que propósito,
Ao fim de seu ânimo
Empreende o dobro de seu vigor
Para voltar aos campos planos, serenos
Que tanto contrastam
Com o barro do qual foi feito,
Para que se sinta novamente seguro,
Mesmo que sozinho.
Poema do dia 1 - A vida passa
Trago em mim
As marcas indeléveis
Do sofrimento atroz, todo,
Desde tenra infância, essa
Maldição que me aprisiona,
Esse pranto que me inunda a alma escura
Do homem amargurado,
Triste, macambúzio, infeliz, finalmente
Que me tornei.
E que ainda hoje sou.
Tenho tanta sede da felicidade, tanta!,
Quanto o colibri do néctar dos hibiscos
Que indefectivelmente florescem no verão,
Sem características definidas,
Ora amarelos, ora vermelhos
E até alaranjados
A mesclar as duas tonalidades, displicentes,
Indisciplinados, sem personalidade e sem fazerem questão
De ser fiéis a ninguém, com a infidelidade da própria natureza
De seu frágil e dispensável ser.
Porque, sim, os hibiscos que indefectivelmente
Florescem no verão são por completo dispensáveis,
Mas quão desenxabida seria minha vida
Sem eles.
O dia lá fora é tão bonito, tão cheio
De uma chama que está sempre a crepitar,
Cujo nome não conheço, tão repleto
De força, de vigor, de altivez!
Até escuto um bem-te-vi agora
A me injetar um pouco do ânimo
Inerente a sua condição de criaturinha de Deus.
E em algum lugar recôndito de meu espírito saturado
De uma esperança que me apodrece
Sei que é belo e nobre,
Disseminando com o canto mavioso
Alguma razão para acreditar,
Para saber com toda a certeza
Que devo ansiar pelo novo dia não tarda.
A vizinha me quer falar e eu respondo:
"Diga lá, ó, minha amiga, o que deseja a senhora?".
Ela me repreende, cheiro de feijão
Bem temperado a urgir na panela.
Lembra-me de que não gosta
Que a trate com tamanha cerimônia.
Justifico-me; falo que tanta formalidade
Deve-se aos meus verdes anos
Passados em colégios rigorosos,
De padres, quando menino,
E de militares, já mais taludo
(mas ainda menino).
Tenho em mim cinco mil velhices,
tenho em mim saudades de cinco mil mães
Cujos filhos partiram para guerras em outras pátrias,
Tenho saudades de tudo,
Sou saudade pura.
No entanto, não sinto a mais insignificante falta
Daqueles colégios, daquelas masmorras,
Daquela gente de mim tão distinta, tão distante, de que nunca gostei
E que jamais teve para comigo
Um gesto sincero e desinteressado.
Neles sempre fui o bom menino
Que sempre aprendia a lição
(Que o digam os mestres, se duvidam de mim),
Que sempre repartia com os colegas
O lanche farto da merendeira azul,
Preparado pela mãe, rainha não só do lar
(Eles estão por aí, nos lugares em que não estou,
E podem confirmá-lo, os exploradores, agora sei).
E para quê? Olhem o que recebi como paga!
Naquelas madraças, que eram
Ainda maiores àquela época,
Era o petiz comportado,
Mas que fazia das suas artes de quando em quando,
Afinal, nunca fui santo
Nem nunca o quis ser.
Nem santo, nem padre, nem mesmo militar:
A invulgar normalidade me basta,
Livre, apenas. Nada. Ninguém.
Lá era o menino
Puro e ingênuo
Que nunca deixei de ser, agora maiorzinho, um pouco,
Que sempre gostou de hibiscos e colibris,
E dos passarinhos cinzentos ou de todo negros. mais
E que nunca precisou de escola para isso
E alguém precisa de escola para o que de fato interessa?
Só das bibliotecas,
Das bibliotecas, meu terno refúgio,
Toda a vida precisei.
Lá, inclusive, entre todos os outros lugares por onde andei,
Foi ganhando corpo
O homem amargurado,
Triste, macambúzio,infeliz, finalmente,
Que já era, que sempre fui,
Antes mesmo de ver a luz deste mundo.
E que nunca deixou de se inquietar
Por não saber a que se presta.
Que fracassou de modo convicto:
Sou ninguém. E sendo ninguém, posso ser tudo o que quiser.
Que tem um medo louco
De ser infeliz para sempre;
Que escuta solos de saxofone
Até que o galo cante
E haja vida outra vez.
Aqui estou, sem máscaras para mim:
O homem imperfeito, que assim será por toda a caminhada.
O homem que não sabe
Nada do mundo, e não se importa por isso,
Porque essa é a sua constituição.
Que vai chegar ao fim sem saber.
Quanta saudade tenho da vida
E de tudo o que não significa mais.
Entretanto, habita em mim,
Na mesma proporção,
O sentimento inverso
Ao que se define por saudade
(E que não sei nominar. Quem sabe possa ser chamado procura?, ou descoberta,
Se me presentear o destino).
Tenho sede por tudo o que há de vir.
Tudo, rigorosamente.
Pulsa em mim
O desejo de viver
Tudo o que não pude
Ou que não quis.
As marcas indeléveis
Do sofrimento atroz, todo,
Desde tenra infância, essa
Maldição que me aprisiona,
Esse pranto que me inunda a alma escura
Do homem amargurado,
Triste, macambúzio, infeliz, finalmente
Que me tornei.
E que ainda hoje sou.
Tenho tanta sede da felicidade, tanta!,
Quanto o colibri do néctar dos hibiscos
Que indefectivelmente florescem no verão,
Sem características definidas,
Ora amarelos, ora vermelhos
E até alaranjados
A mesclar as duas tonalidades, displicentes,
Indisciplinados, sem personalidade e sem fazerem questão
De ser fiéis a ninguém, com a infidelidade da própria natureza
De seu frágil e dispensável ser.
Porque, sim, os hibiscos que indefectivelmente
Florescem no verão são por completo dispensáveis,
Mas quão desenxabida seria minha vida
Sem eles.
O dia lá fora é tão bonito, tão cheio
De uma chama que está sempre a crepitar,
Cujo nome não conheço, tão repleto
De força, de vigor, de altivez!
Até escuto um bem-te-vi agora
A me injetar um pouco do ânimo
Inerente a sua condição de criaturinha de Deus.
E em algum lugar recôndito de meu espírito saturado
De uma esperança que me apodrece
Sei que é belo e nobre,
Disseminando com o canto mavioso
Alguma razão para acreditar,
Para saber com toda a certeza
Que devo ansiar pelo novo dia não tarda.
A vizinha me quer falar e eu respondo:
"Diga lá, ó, minha amiga, o que deseja a senhora?".
Ela me repreende, cheiro de feijão
Bem temperado a urgir na panela.
Lembra-me de que não gosta
Que a trate com tamanha cerimônia.
Justifico-me; falo que tanta formalidade
Deve-se aos meus verdes anos
Passados em colégios rigorosos,
De padres, quando menino,
E de militares, já mais taludo
(mas ainda menino).
Tenho em mim cinco mil velhices,
tenho em mim saudades de cinco mil mães
Cujos filhos partiram para guerras em outras pátrias,
Tenho saudades de tudo,
Sou saudade pura.
No entanto, não sinto a mais insignificante falta
Daqueles colégios, daquelas masmorras,
Daquela gente de mim tão distinta, tão distante, de que nunca gostei
E que jamais teve para comigo
Um gesto sincero e desinteressado.
Neles sempre fui o bom menino
Que sempre aprendia a lição
(Que o digam os mestres, se duvidam de mim),
Que sempre repartia com os colegas
O lanche farto da merendeira azul,
Preparado pela mãe, rainha não só do lar
(Eles estão por aí, nos lugares em que não estou,
E podem confirmá-lo, os exploradores, agora sei).
E para quê? Olhem o que recebi como paga!
Naquelas madraças, que eram
Ainda maiores àquela época,
Era o petiz comportado,
Mas que fazia das suas artes de quando em quando,
Afinal, nunca fui santo
Nem nunca o quis ser.
Nem santo, nem padre, nem mesmo militar:
A invulgar normalidade me basta,
Livre, apenas. Nada. Ninguém.
Lá era o menino
Puro e ingênuo
Que nunca deixei de ser, agora maiorzinho, um pouco,
Que sempre gostou de hibiscos e colibris,
E dos passarinhos cinzentos ou de todo negros. mais
E que nunca precisou de escola para isso
E alguém precisa de escola para o que de fato interessa?
Só das bibliotecas,
Das bibliotecas, meu terno refúgio,
Toda a vida precisei.
Lá, inclusive, entre todos os outros lugares por onde andei,
Foi ganhando corpo
O homem amargurado,
Triste, macambúzio,infeliz, finalmente,
Que já era, que sempre fui,
Antes mesmo de ver a luz deste mundo.
E que nunca deixou de se inquietar
Por não saber a que se presta.
Que fracassou de modo convicto:
Sou ninguém. E sendo ninguém, posso ser tudo o que quiser.
Que tem um medo louco
De ser infeliz para sempre;
Que escuta solos de saxofone
Até que o galo cante
E haja vida outra vez.
Aqui estou, sem máscaras para mim:
O homem imperfeito, que assim será por toda a caminhada.
O homem que não sabe
Nada do mundo, e não se importa por isso,
Porque essa é a sua constituição.
Que vai chegar ao fim sem saber.
Quanta saudade tenho da vida
E de tudo o que não significa mais.
Entretanto, habita em mim,
Na mesma proporção,
O sentimento inverso
Ao que se define por saudade
(E que não sei nominar. Quem sabe possa ser chamado procura?, ou descoberta,
Se me presentear o destino).
Tenho sede por tudo o que há de vir.
Tudo, rigorosamente.
Pulsa em mim
O desejo de viver
Tudo o que não pude
Ou que não quis.
