Wednesday, April 30, 2008
Dance! Ainda que consigo mesmo
Vai ficar, como eu, sozinho no feriadão? Esta música é genuíno achado contra depressão, melancolia, dor-de-cotovelo, fossa e afins. Interpretada por Billy Idol, cujo nome de batismo é William Albert Michael Broad, Dancing with myself tornou-se coqueluche em todo o globo no já longínquo 1981. Sem mais delongas, puxe a um canto a cadeira giratória, tome espaço e fôlego e mande brasa! http://www.youtube.com/watch?v=0VNx78SAq8M
Governo autoritário em Cuba ainda longe do fim
Leiam o que vai abaixo. Da redação da Folha de S. Paulo
Raúl reestrutura partido e consolida poder em Cuba
Dirigente declara encerrada transição pós-afastamento de Fidel Castro; cúpula do PC terá um novo órgão executivo. Mudanças visam agilizar decisões e reforçar papel do partido, diz Raúl Castro; comutação de penas de morte beneficiará 30 presos
O líder de Cuba, Raúl Castro, consolidou sua posição no comando da ilha ao declarar encerrado o período de transição iniciado com a doença de seu irmão, Fidel Castro, e anunciar uma reorganização da cúpula do Partido Comunista. "Os acordos que aprovamos encerram o período provisório iniciado em 31 de julho de 2006 com o anúncio do comandante-em-chefe [de que estava transferindo "provisoriamente" a Raúl seus cargos na ilha], até a mensagem em que nos expressou seu propósito de ser apenas um soldado das idéias", disse Raúl em discurso à Sexta Plenária do Comitê Central do Partido Comunista, presidida por ele e sem o irmão presente. A íntegra do discurso, feito na noite de segunda-feira, foi publicada ontem pela imprensa oficial cubana. A intenção de militar apenas no campo das idéias foi anunciada por Fidel em 19 de fevereiro último, ao renunciar formalmente a seus cargos no governo da ilha. Cinco dias depois, a Assembléia Nacional nomeava Raúl, 76, presidente do Conselho de Estado, ou seja, chefe do governo. O ex-ditador ainda retém o cargo de primeiro-secretário do PC, mas ele não faz parte da nova Comissão do Birô Político do partido, anunciada por Raúl Castro com o objetivo de "tornar mais funcional o processo de tomada de decisões que exijam um tratamento rápido". A comissão é presidida por Raúl e formada por outros seis membros da alta cúpula do PC (leia texto ao lado). No discurso, Raúl deixou claro que a consolidação de seu governo e as micro-reformas econômicas anunciadas recentemente por ele não significam uma redução do papel do PC como único partido permitido em Cuba. Ao contrário, ele afirmou que uma de suas prioridades é o fortalecimento do PC para permitir sua sobrevivência depois da morte dos dirigentes históricos da revolução.
Comida e pena de morte
Raúl Castro frisou que um dos principais objetivos das reformas é o aumento da produção agrícola no país, que classificou como "questão de máxima segurança nacional". Ele já baixou medidas descentralizando decisões na agricultura, liberando a venda de insumos e dando maior autonomia aos produtores privados. Desde fevereiro, foi liberada a compra, pela população cubana, de produtos cujo consumo era antes proibido, como celulares e DVDs. No domingo, foi anunciado um aumento das aposentadorias. "Nossa meta principal é continuar melhorando nosso imperfeito mas justo sistema social, em meio à realidade atual, que sabemos extremamente complexa e mutante", disse o dirigente. No discurso, Raúl Castro também anunciou que todas as penas de morte do país foram comutadas para sentenças a partir de 30 anos de prisão, com a exceção de três detidos acusados de terrorismo. Ressaltou que isso não significa a abolição da pena capital, segundo ele justificada no país pelo "terrorismo de Estado" cometido pelos Estados Unidos. De acordo com a dissidente Comissão Cubana de Direitos Humanos, cerca de 30 pessoas serão beneficiadas pela comutação de pena, que Raúl afirmou não ter sido adotada por pressão, mas "como um ato soberano em consonância com a conduta humanitária e ética que caracteriza a revolução". Ele ainda se referiu à disputa presidencial nos EUA e, sem citar nomes, mas numa óbvia referência ao republicano John McCain, à "possibilidade real" de a "extrema direita conseguir se impor" -o que, segundo disse, manteria "o clima mundial de instabilidade e violência". Raúl Castro anunciou a realização, em 2009, do Sexto Congresso do Partido Comunista, o primeiro desde 1997. (Com agências internacionais).
Voltei
Como se depreende da matéria, a ditadura cubana segue a plenos pulmões, apenas mudou de comando. Lembram-se de quando renunciou e veio com aquela história de "renovação"? Pois bem, aí está o que os Castro entendem por restauração: perpetuar políticas arcaicas, regando-as a muito marketing, que disso eles entendem muito, para que pareçam novas -nisso também possuem excelente know-how. De provisória, a administração Raúl Castro, 76 (!), não tem nada e, desnecessário e redundante dizê-lo, se firma como a continuação da dinastia. Além de sua permanência no poder da ilha já se estender por 21 meses, o Partido Comunista Cubano continuará a ter forte influência junto ao Estado, capitaneado, como não podia deixar de ser, por Fidel. Não me venham com essa de que, por ele não pertencer à nova Comissão do Birô Político do PC não apita nada: o homem é, simplesmente, primeiro-secretário daquela estrovenga.
Quanto às mudanças no cenário econômico, dizer o quê? Raúl Castro não é bobo. Acontece que a fonte está secando: os quase cinqüenta anos de isolamento e paralisia industrial se impuseram mais que os delírios de poder da família real, a ponto de a nova velha política interna sofrer ameaças e não agüentar mais, tanto que a primeira medida a que se seguiu a abertura do saco de bondades foi o aumento das aposentadorias do imperfeito mas justo sistema social deles. Imperfeito, mas justo!? Só se for para Fidel, Raúl e seus apaniguados.
De maneira o seu tanto luliana, Raúl anunciou que a pena de morte deixa de existir, mas continua existindo para os terroristas de Estado, em especial os norte-americanos, cujo governo extremo-direitista classificou como violento. Dá para acreditar na cara-de-pau dessa gente? Do jeito que a coisa vai, Raúl conseguirá o que o hermano passou meio século tentando obstinadamente, porém sem êxito: uma intervenção militar dos Estados Unidos. E depois da desgraceira toda consumada, a conseqüente desculpa de que nenhum dos dois teve qualquer responsabilidade com o flagelo da penúria ainda maior a que o país que geriram de modo tão desastroso terá de se submeter.
Saturday, April 26, 2008
Mao — A China vermelha como sangue
“Ninguém explicou Mao como nós”. A afirmação pode, naturalmente, soar presunçosa, mas é de modo impressionante, verdadeira, e foi feita por Jung Cheng, autora, junto com o marido, o historiador inglês Jon Halliday, de Mao — A história desconhecida (Companhia das Letras, 2006). De fato, a trajetória do líder comunista cuja atuação política foi, de longe, a mais sangrenta da História —Mao Tse-tung ceifou cerca de setenta milhões de vidas ao longo de 27 anos no poder—, é esmiuçada no portentoso trabalho de 954 páginas, desde seu nascimento no pequeno vale de Shaoshan, no interior da China, de uma família humilde, em 23 de dezembro de 1893, até seu desaparecimento aos 83 anos, em 9 de setembro de 1976, abrigado na mordomia de uma mansão especialmente construída para ele em Zhongnanhai que, entre outros luxos, dispunha de sistema antiterremoto.
Mao, quando ocupante do mais alto posto de comando de seu país, não mediu conseqüências ao lançar mão das mais vis artimanhas a fim de se perpetuar no governo da China. Cheng e Halliday apontam à página 387, a primeira do 30º capítulo, entitulado A China conquistada, o quão impiedoso era o déspota. Em 1948, com pressa em tomar Changchun, na Manchúria, ordenou ao comandante Lin Biao que fizesse a população se render de maneira rápida. Suas palavras foram, literalmente: “Façam de Changchun uma cidade de morte”. O inclemente cerco a Changchun contou com o bloqueio de alimentos, uma estratégia morbidamente brilhante para a materialização de seu intento. Os habitantes civis, de um momento para o outro, tinham apenas casca de árvores e capim (!) com que saciar a fome e muitos morreram de inanição. Resultado: a barbárie. Não eram raras estórias de gente brutalmente assassinada só porque tinha um pedaço de chão em que plantar e algumas reses. Eram tidos por iminentes membros da burguesia. Os relatórios enviados a Mao sobre o que passava no condado estavam sempre repletos de descrições tétricas de cruéis justiçamentos, como o de uma pessoa afogada em um tanque de água salgada, e outra, morta com óleo fervente despejado sobre sua cabeça. Estava constituído um Estado policial tão terrificante quanto eficaz, em que os cidadãos tinham de periodicamente acusar detentores de propriedades privadas. Atrocidades como o episódio em que um menino teve o coração arrancado enquanto vivo porque o pai era um modesto lavrador eram comuns. Quando perguntado acerca do motivo de ter feito aquilo, o homicida respondia sossegadamente: “O presidente Mão mandou que exterminássemos todos os inimigos da Revolução”.
Recebendo ajuda de outros tiranos, como Ióssif Stálin Djugachvíli Vissarionóvitch, Mao Tse-tung contava em transformar a China em uma potência mundial, montando para isso uma máquina de guerra extraordinária, jamais descuidando da alienação popular e da adulteração maniqueísta de informações e pensamentos. Auxiliado ainda por sua segunda esposa, com quem permaneceria casado até morrer, Jiang Qing, a madame Mao, que muitos consideram o verdadeiro cérebro por trás de todas as maldades postas em prática pelo marido, mesmo não tendo estado em tempo algum na origem das medidas políticas e nunca tendo passado de uma reles e muito obediente serva dele (“Eu era o cão do presidente Mao: quem quer que ele me pedisse para morder, eu mordia”), desde o instante em que se casaram, em 1938, Mao Tse-tung deu início à Revolução Cultural, que de revolução não tinha nada, muito pelo contrário: a tal “revolução” mergulhou a China em um atraso cultural sem precedentes acerca de tudo quanto dissesse respeito à manifestações artístico-culturais de seu reino, destruindo qualquer vestígio do que fora produzido na esfera da arte e da cultura chinesas, pretendendo com isso fazer com que a população se convencesse de que a História da China, de contribuições milenares que se disseminaram em todo o mundo, havia principiado com ele, inclusive o cinema, tão apreciado por Jiang Qiang. Madame Mao, confessou certa feita em um arroubo que “adorava” Greta Garbo e ...E o vento levou, que disse ter assistido umas dez vezes. “A cada vez, me emociono mais. Será que a China consegue produzir algo assim?”, questionava, como se ela e o marido não tivessem nada a ver com a supressão da sétima arte na China. O cinismo dos dois não conhecia limites.
Mao morreu sem nunca ter visto seus delírios de grandeza se tornar realidade. Passou seus últimos dias na lauta residência de Zhongnanhai, assistido por Meng Jin-yun, uma antiga namorada feita sua enfermeira, que o escutou dizer suas derradeiras palavras: “Sinto-me muito doente. Chame os médicos”. Mesmo no leito de morte, percebia-se em sua fala laivos do autoritarismo que dera o tom em sua existência sombria, pautada para a conquista da hegemonia a qualquer preço, ainda que imcomparável ao que empregara nos áureos tempos plúmbeos. Permanecera lúcido até o fim e em sua mente havia só um pensamento, como especulam Cheng e Halliday; o poder.
Ler esta obra é imprescindível para não se admitir que tantos crimes voltem a ser perpetrados contra a humanidade. Como sentenciou o expoente-mor do socialismo, Marx, a História só se repete como farsa. E se assim é, está mais do que na hora de a China abandonar a esquizofrenia em que se encontra e assumir-se uma nação democrática, com todas as vantagens —e desvantagens— que isso implica, ou se confessar uma forma de governo totalitária, ainda que em outros —e muito originais— moldes, com todas as vantagens —e desvantagens— que isso traz, o que é mais coerente, haja vista suas posições quanto ao Tibete, talvez inspiradas pelo espectro tão vivo de Mao, cujo retrato e o próprio cadáver, após 32 anos, ainda estão na praça Tiananmen, no centro de Pequim, despertando até hoje uma estranha admiração sob o atual regime, que declara-se seu herdeiro e perepetua veementemente seu mito.
Mao, quando ocupante do mais alto posto de comando de seu país, não mediu conseqüências ao lançar mão das mais vis artimanhas a fim de se perpetuar no governo da China. Cheng e Halliday apontam à página 387, a primeira do 30º capítulo, entitulado A China conquistada, o quão impiedoso era o déspota. Em 1948, com pressa em tomar Changchun, na Manchúria, ordenou ao comandante Lin Biao que fizesse a população se render de maneira rápida. Suas palavras foram, literalmente: “Façam de Changchun uma cidade de morte”. O inclemente cerco a Changchun contou com o bloqueio de alimentos, uma estratégia morbidamente brilhante para a materialização de seu intento. Os habitantes civis, de um momento para o outro, tinham apenas casca de árvores e capim (!) com que saciar a fome e muitos morreram de inanição. Resultado: a barbárie. Não eram raras estórias de gente brutalmente assassinada só porque tinha um pedaço de chão em que plantar e algumas reses. Eram tidos por iminentes membros da burguesia. Os relatórios enviados a Mao sobre o que passava no condado estavam sempre repletos de descrições tétricas de cruéis justiçamentos, como o de uma pessoa afogada em um tanque de água salgada, e outra, morta com óleo fervente despejado sobre sua cabeça. Estava constituído um Estado policial tão terrificante quanto eficaz, em que os cidadãos tinham de periodicamente acusar detentores de propriedades privadas. Atrocidades como o episódio em que um menino teve o coração arrancado enquanto vivo porque o pai era um modesto lavrador eram comuns. Quando perguntado acerca do motivo de ter feito aquilo, o homicida respondia sossegadamente: “O presidente Mão mandou que exterminássemos todos os inimigos da Revolução”.
Recebendo ajuda de outros tiranos, como Ióssif Stálin Djugachvíli Vissarionóvitch, Mao Tse-tung contava em transformar a China em uma potência mundial, montando para isso uma máquina de guerra extraordinária, jamais descuidando da alienação popular e da adulteração maniqueísta de informações e pensamentos. Auxiliado ainda por sua segunda esposa, com quem permaneceria casado até morrer, Jiang Qing, a madame Mao, que muitos consideram o verdadeiro cérebro por trás de todas as maldades postas em prática pelo marido, mesmo não tendo estado em tempo algum na origem das medidas políticas e nunca tendo passado de uma reles e muito obediente serva dele (“Eu era o cão do presidente Mao: quem quer que ele me pedisse para morder, eu mordia”), desde o instante em que se casaram, em 1938, Mao Tse-tung deu início à Revolução Cultural, que de revolução não tinha nada, muito pelo contrário: a tal “revolução” mergulhou a China em um atraso cultural sem precedentes acerca de tudo quanto dissesse respeito à manifestações artístico-culturais de seu reino, destruindo qualquer vestígio do que fora produzido na esfera da arte e da cultura chinesas, pretendendo com isso fazer com que a população se convencesse de que a História da China, de contribuições milenares que se disseminaram em todo o mundo, havia principiado com ele, inclusive o cinema, tão apreciado por Jiang Qiang. Madame Mao, confessou certa feita em um arroubo que “adorava” Greta Garbo e ...E o vento levou, que disse ter assistido umas dez vezes. “A cada vez, me emociono mais. Será que a China consegue produzir algo assim?”, questionava, como se ela e o marido não tivessem nada a ver com a supressão da sétima arte na China. O cinismo dos dois não conhecia limites.
Mao morreu sem nunca ter visto seus delírios de grandeza se tornar realidade. Passou seus últimos dias na lauta residência de Zhongnanhai, assistido por Meng Jin-yun, uma antiga namorada feita sua enfermeira, que o escutou dizer suas derradeiras palavras: “Sinto-me muito doente. Chame os médicos”. Mesmo no leito de morte, percebia-se em sua fala laivos do autoritarismo que dera o tom em sua existência sombria, pautada para a conquista da hegemonia a qualquer preço, ainda que imcomparável ao que empregara nos áureos tempos plúmbeos. Permanecera lúcido até o fim e em sua mente havia só um pensamento, como especulam Cheng e Halliday; o poder.
Ler esta obra é imprescindível para não se admitir que tantos crimes voltem a ser perpetrados contra a humanidade. Como sentenciou o expoente-mor do socialismo, Marx, a História só se repete como farsa. E se assim é, está mais do que na hora de a China abandonar a esquizofrenia em que se encontra e assumir-se uma nação democrática, com todas as vantagens —e desvantagens— que isso implica, ou se confessar uma forma de governo totalitária, ainda que em outros —e muito originais— moldes, com todas as vantagens —e desvantagens— que isso traz, o que é mais coerente, haja vista suas posições quanto ao Tibete, talvez inspiradas pelo espectro tão vivo de Mao, cujo retrato e o próprio cadáver, após 32 anos, ainda estão na praça Tiananmen, no centro de Pequim, despertando até hoje uma estranha admiração sob o atual regime, que declara-se seu herdeiro e perepetua veementemente seu mito.
Friday, April 25, 2008
Mais uma da República da Sunga
Compra da Brasil Telecom pela Oi pode chegar a R$ 12,3 bilhões
Por Cirillo Junior, da Folha Online, no Rio, e Ygor Salles, da Folha Online, em São Paulo. Comento em seguida:
Acordo
Voltei
Por Cirillo Junior, da Folha Online, no Rio, e Ygor Salles, da Folha Online, em São Paulo. Comento em seguida:
A operação de compra da Brasil Telecom pela Oi, anunciada nesta sexta-feira, pode chegar a R$ 12,3 bilhões, afirmou o presidente da Oi, Luiz Eduardo Falco.
Segundo ele, além dos R$ 5,8 bilhões dispensados para adquirir controle direto e indireto, serão necessários, possivelmente, R$ 3,5 bilhões para as ofertas aos acionistas donos de ações ordinárias, conforme determina a lei, e mais R$ 3 bilhões para comprar ações preferenciais no mercado.
"São 5,8 bi de controle direto e indireto, depois o "tag along" [extensão do prêmio de controle a minoritários], que é obrigatório por lei, mais algumas ofertas que estamos fazendo no mercado no sentido de comprar mais participações. Pode chegar a R$ 12 bilhões ou R$ 13 bilhões, dependendo das participações que comprarmos", disse.
Falco mostrou-se confiante na alteração do PGO (Plano Geral de Outorgas), que regula o setor de telefonia), que permitirá que o negócio seja viabilizado. Ele espera que dentro de dois a três meses, a mudança possa ser ratificada. Pela legislação atual, uma empresa de telefonia fixa não pode adquirir outra de diferente área de atuação.
"Dado o aumento de competitividade, entendemos que, dez anos após a privatização, já está na hora de adaptar o PGO pra que o Brasil seja mais competitivo. Nós seríamos o terceiro grupo competitivo, hoje há dois grupos fortes [espanhóis e mexicanos], trazendo benefícios para o consumidor", disse. Falco também destacou que, agora, o Brasil terá uma tele com ambição de conquistar mercados no exterior.
Enquanto o PGO não for alterado, explicou Falco, Oi e Brasil Telecom deverão ter operações completamente independentes.
Sobre a compra, o executivo ressaltou que, por ora, não há necessidade de financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para o negócio. Ele garantiu que a Oi tem recursos próprios e buscará captações no mercado, mas não descartou que algum dos controladores busquem recursos junto ao banco de fomento.
Segundo ele, além dos R$ 5,8 bilhões dispensados para adquirir controle direto e indireto, serão necessários, possivelmente, R$ 3,5 bilhões para as ofertas aos acionistas donos de ações ordinárias, conforme determina a lei, e mais R$ 3 bilhões para comprar ações preferenciais no mercado.
"São 5,8 bi de controle direto e indireto, depois o "tag along" [extensão do prêmio de controle a minoritários], que é obrigatório por lei, mais algumas ofertas que estamos fazendo no mercado no sentido de comprar mais participações. Pode chegar a R$ 12 bilhões ou R$ 13 bilhões, dependendo das participações que comprarmos", disse.
Falco mostrou-se confiante na alteração do PGO (Plano Geral de Outorgas), que regula o setor de telefonia), que permitirá que o negócio seja viabilizado. Ele espera que dentro de dois a três meses, a mudança possa ser ratificada. Pela legislação atual, uma empresa de telefonia fixa não pode adquirir outra de diferente área de atuação.
"Dado o aumento de competitividade, entendemos que, dez anos após a privatização, já está na hora de adaptar o PGO pra que o Brasil seja mais competitivo. Nós seríamos o terceiro grupo competitivo, hoje há dois grupos fortes [espanhóis e mexicanos], trazendo benefícios para o consumidor", disse. Falco também destacou que, agora, o Brasil terá uma tele com ambição de conquistar mercados no exterior.
Enquanto o PGO não for alterado, explicou Falco, Oi e Brasil Telecom deverão ter operações completamente independentes.
Sobre a compra, o executivo ressaltou que, por ora, não há necessidade de financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para o negócio. Ele garantiu que a Oi tem recursos próprios e buscará captações no mercado, mas não descartou que algum dos controladores busquem recursos junto ao banco de fomento.
Acordo
Do valor total R$ 5,863 bilhões, R$ 4,982 bilhões foram pagos para a aquisição da Invitel (dona da Solpart, que por sua vez é a controladora da Brasil Telecom Participações). Outros R$ 881 milhões serão pagos por ações de emissão da Brasil Telecom Participações detidas por alguns dos acionistas da BrT vinculados ao acordo feito entre os acionistas controladores da empresa --entre eles os fundos de pensão.
O negócio ainda depende de mudança na legislação do setor --já que atualmente é proibido uma empresa de telefonia fixa comprar outra de diferente área de atuação--, e de aprovação pelos órgãos reguladores, como a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Os dois órgãos ainda não foram notificados.
O contrato assinado entre Oi e BrT prevê que duas condições sejam cumpridas para o sucesso do negócio. A primeira é que a Anatel aprove a aquisição em até 240 dias. Além disso, deve ocorrer uma oferta pública de compra de ações ordinárias da BrT em circulação no mercado. O fechamento desta última operação deve ocorrer em até dez dias depois da aprovação da Anatel. Caso isso não ocorra, o contrato será desfeito e a Telemar pagará R$ 490 milhões de multa.
Independente do fechamento ou não do contrato, a Telemar pagará R$ 315 milhões para eliminar todas as pendências judiciais relativas à disputa do controle acionário da BrT --que envolvem os fundos de pensão Previ (de funcionários do Banco do Brasil) e Petros (dos petroleiros) e os bancos Citigroup e Opportunity, de Daniel Dantas.
Assim que a aquisição for concretizada, a Oi fará uma OPA (Oferta Pública de Ações) obrigatória para adquirir as ações de minoritários, conforme determina as regras da CVM (Comissão de Valores Mobiliários, que regula o mercado de ações). Nessa oferta a Oi pagará R$ 57,85 por ação ordinária da Brasil Telecom Participações e R$ 54,31 por ação ordinária da BrT.
A Oi também deverá fazer uma OPA, esta voluntária, para adquirir até um terço das ações preferenciais da Brasil Telecom Participações e da BrT, ao preço de R$ 30,47 e R$ 23,42, respectivamente. Segundo a empresa, esses preços representam um prêmio de 32,6% sobre a média das cotações das ações nos últimos 90 dias.
NegociaçãoO negócio ainda depende de mudança na legislação do setor --já que atualmente é proibido uma empresa de telefonia fixa comprar outra de diferente área de atuação--, e de aprovação pelos órgãos reguladores, como a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Os dois órgãos ainda não foram notificados.
O contrato assinado entre Oi e BrT prevê que duas condições sejam cumpridas para o sucesso do negócio. A primeira é que a Anatel aprove a aquisição em até 240 dias. Além disso, deve ocorrer uma oferta pública de compra de ações ordinárias da BrT em circulação no mercado. O fechamento desta última operação deve ocorrer em até dez dias depois da aprovação da Anatel. Caso isso não ocorra, o contrato será desfeito e a Telemar pagará R$ 490 milhões de multa.
Independente do fechamento ou não do contrato, a Telemar pagará R$ 315 milhões para eliminar todas as pendências judiciais relativas à disputa do controle acionário da BrT --que envolvem os fundos de pensão Previ (de funcionários do Banco do Brasil) e Petros (dos petroleiros) e os bancos Citigroup e Opportunity, de Daniel Dantas.
Assim que a aquisição for concretizada, a Oi fará uma OPA (Oferta Pública de Ações) obrigatória para adquirir as ações de minoritários, conforme determina as regras da CVM (Comissão de Valores Mobiliários, que regula o mercado de ações). Nessa oferta a Oi pagará R$ 57,85 por ação ordinária da Brasil Telecom Participações e R$ 54,31 por ação ordinária da BrT.
A Oi também deverá fazer uma OPA, esta voluntária, para adquirir até um terço das ações preferenciais da Brasil Telecom Participações e da BrT, ao preço de R$ 30,47 e R$ 23,42, respectivamente. Segundo a empresa, esses preços representam um prêmio de 32,6% sobre a média das cotações das ações nos últimos 90 dias.
Todas as pendências envolvendo os sócios Citigroup e Opportunity, do empresário Daniel Dantas, que eram o último empecilho na Brasil Telecom, foram resolvidas no mês passado.
Embora a legislação atual do setor de telecomunicações possa ser outro empecilho, o governo já afirmou que mudará as regras para dar "sinal verde" à fusão. No início deste mês, o presidente da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), Ronaldo Sardenberg, afirmou que os estudos para mudanças em leis e regulamentos do setor também estavam "se aproximando do seu auge".
Para aceitar mudança na legislação e permitir a fusão Oi/BrT, o governo, porém, disse querer contrapartidas das empresas, mas não informou quais seriam elas. Além disso, já se articulou para garantir que no futuro a nova tele não caia em mãos estrangeiras. Assim, caso os acionistas resolvam vender o controle da nova empresa, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) terá preferência sobre a venda de participações.
Embora a legislação atual do setor de telecomunicações possa ser outro empecilho, o governo já afirmou que mudará as regras para dar "sinal verde" à fusão. No início deste mês, o presidente da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), Ronaldo Sardenberg, afirmou que os estudos para mudanças em leis e regulamentos do setor também estavam "se aproximando do seu auge".
Para aceitar mudança na legislação e permitir a fusão Oi/BrT, o governo, porém, disse querer contrapartidas das empresas, mas não informou quais seriam elas. Além disso, já se articulou para garantir que no futuro a nova tele não caia em mãos estrangeiras. Assim, caso os acionistas resolvam vender o controle da nova empresa, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) terá preferência sobre a venda de participações.
Voltei
A trama é indigestamente rocambolesca por si só: envolvendo desde arapongas a advogados e juízes italianos, além de, é claro, lobistas brasileiros, a fusão da Brasil Telecom --empresa brasileira operadora de telefonia fixa das regiões Centro-Oeste, Sul e Norte, até o ano passado com grande parcela de capital italiano, por meio da Telecom Itália-- com a Oi é uma dos maiores empreendimentos dessa natureza já feitos no Brasil. Assim como a Telebrás, a Telecom Itália era uma estatal até o fim da década de 90. Desde a privatização, a companhia pertenceu a diversos donos, inclusive à toda-poderosa Pirelli, a maior empresa italiana. Note-se: a Telecom Itália ainda está no país, operando em telefonia celular, mediante aTIM.
Isto é apenas um aperitivo, este, sim, muito saboroso, para que se entenda com clareza do que trata o imbróglio, aliás, vocábulo mais apropriado para definir o enredo não há. Recomendo entusiasmadamente a leitura dos blogs dos jornalistas Reinaldo Azevedo (www.veja.abril.com.br/blogs/reinaldo), Janaína Leite (www.arrastao.apostos.com), preciosa descoberta da semana, e o podcast do jornalista e colunista da revista Veja, Diogo Mainardi (www.veja.abril.com.br/idade/podcasts/mainardi), que relatam com riqueza de dados e pormenores e muita propriedade --Leite e Mainardi tiveram de responder a processos na Justiça brasileira por parte de Angelo Jannone, Luís Roberto Demarco e Daniel Dantas, personagens centrais do meganegócio-- os emaranhados da maracutaia e o envolvimento de parajornalistas brasileiros na defesa das raposas patas-leves, como Luís Nassif. Diogo Mainardi ganhou. Assim como Janaína Leite também irá ganhar.
Wednesday, April 23, 2008
Novo presidente do Supremo condena MST
Por Letícia Sander e Felipe Seligman, da Folha. Comento em seguida:
Em seu discurso de posse na presidência do STF (Supremo Tribunal Federal), o ministro Gilmar Ferreira Mendes, 52, atacou ontem a ação de movimentos sociais, defendeu o papel do Judiciário na consolidação da democracia e não poupou críticas ao Planalto, ao reclamar do modelo de edição de medidas provisórias que, segundo ele, paralisa o Congresso e "embaraça o processo democrático". Diante de pelo menos 3.500 convidados, que incluíam as principais autoridades da República, o novo presidente do STF cobrou "firmeza" das autoridades em virtude de agressões à comunidade em geral, numa referência à ação de movimentos sociais que, de acordo com ele, atuam, "às vezes, na fronteira da legalidade"."Nesses casos, é preciso que haja firmeza por parte das autoridades constituídas. O direito de reunião e de liberdade de opinião devem ser respeitados e assegurados. A agressão aos direitos de terceiros e da comunidade em geral deve ser repelida imediatamente com os instrumentos fornecidos pelo Estado de Direito, sem embaraços, sem tergiversações, sem leniências. O Judiciário tem grande responsabilidade no contexto destas violações e deve atuar com o rigor que o regime democrático impõe", disse. Embora não tenha citado nomes, a crítica ocorre num momento em que o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) promove ações pelo país no chamado "Abril Vermelho", com invasões de propriedades da Vale do Rio Doce e de prédios públicos. Diante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o novo presidente do STF demonstrou que não concorda com a postura do Executivo sobre as medidas provisórias, tema sobre o qual o tribunal deverá deliberar nos próximos dias. Defendeu que se encontre um modelo de aplicação das MPs que possibilite o "uso racional" deste instrumento, classificado por ele como "desgastado"."Os Poderes da República encontram-se preparados e maduros para o diálogo político inteligente, suprapartidário, no intuito de solucionar um impasse que, paralisando o Congresso, embaraça o processo democrático", disse. Embora publicamente tenha incentivado o debate sobre uma reforma na tramitação de MPs, Lula afirmou que "ninguém governa" sem elas. Seus aliados no Congresso defendem mudanças sutis nas regras. Ao lado de Mendes, Lula ouviu as críticas calado. Pelo protocolo, presidentes da República não falam na cerimônia. Mendes assumiu uma cadeira no STF em 2002, nomeado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), presente na platéia. Ele agradeceu publicamente FHC pela indicação. Na composição atual, 7 dos 11 ministros foram nomeados por Lula. Os ex-presidentes Fernando Collor de Mello e José Sarney também estavam na platéia, assim como os governadores tucanos José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), parlamentares, ministros e advogados. No discurso, Mendes se referiu aos últimos 20 anos como o mais longo período de estabilidade democrática e normalidade institucional do país. Relembrou "a inflação descontrolada" e os "sérios casos de corrupção no estamento político". A despeito dos conflitos recentes entre o Judiciário e o Congresso, Mendes afirmou que a Corte "tem a real dimensão de que não lhe cabe substituir-se ao legislador, muito menos restringir o exercício da atividade política".
Embora a atitude de novo presidente do STF em criticar logo de cara a postura de organismos paralegais como o MST tenha sido muito louvável, duvido que algo efetivamente mude. O MST ainda lavrará por muito tempo sobre os cadáveres de Eldorado dos Carajás, que bem mais que mártires produziu álibi para tudo o que mesmo hoje se vê. E pior: tendo a aquiescência do próprio presidente da República. Quanto às Medidas Provisórias, tenho um pouco mais de esperança, sentimento que em mim desperta baseado pelo discurso consistente de Mendes. E por falar em discurso, pelo menos desta vez fomos poupados de alguma truculência e de muito constrangimento: Lula se comportou como um chefe de Estado que se preze e milagrosamente respeitou o protocolo, contendo seu espírito sacripanta e não emitindo nenhuma de suas néscias opiniões regadas a metáforas futebolísticas boçais. É isso aí, ministro: mais amor e menas confiança!
Caso Isabella-Perguntar não ofende
Devido à grande repercussão do homicídio da menina Isabella de Oliveira Nardoni, 5, cujo pai, Alexandre Nardoni, 29, e a mulher dele, Anna Carolina Jatobá, 24, são os principais -e únicos- suspeitos, no último dia 29, há quase um mês, portanto, atrevo a postar questões relevantes, algumas já repetidas à exaustão por todos os veículos de imprensa, que angariaram com tal medida valiosos pontos nos índices de verificação de audiência, mas nem por essa razão inúteis ou desnecessárias: provocam a tão fundamental reflexão sobre a barbárie e a incredulidade intrínsecas ao funesto episódio. Contudo, outras estão, modestamente, banhadas no mais completo e assombroso ineditismo, como podem constatar abaixo.
I. Como Anna Carolina Jatobá explica o fato de as marcas no pescoço de Isabella serem compatíveis com o formato e o tamanho de suas mãos?
II. Que explicação Alexandre Nardoni pode dar para a evidência de que a pegada encontrada na cama foi feita com um chinelo que, tudo leva a crer, pertencia a ele?
III. Não é muita coincidência que Isabella tenha sido carregada por um adulto com estatura semelhante a de Alexandre Nardoni?
IV. De que maneira Alexandre Nardoni explica terem sido encontradas fibras de náilon da grade de proteção junto à janela em sua camiseta, que só puderam se fixar à roupa do indiciado graças a um movimento de pressão, como ele se debruçasse, e não apenas se pusesse próximo à janela?
V. O que fez Isabella de tão grave na festa a que compareceu com o pai e a madrasta na noite de 29 de março?
VI. Se o sangue encontrado no assoalho do Ford Ka de Alexandre Nardoni for de outra pessoa que não da filha, e ele permanece dizendo que não é de Isabella, de quem seria?
VII. Por que o casal demorou 14 minutos para acionar o resgate? Por que telefonou antes para a irmã, Cristiane Nardoni?
VIII. Por que teriam brigado Alexandre Nardoni e a mulher, Anna Carolina Jatobá, de acordo com o que relataram ter acontecido na noite do crime por testemunhas?
IX. O que explica Alexandre usar de expedientes tão violentos com os filhos, como suspender o filho mais velho, Pietro, 3 anos, no ar e o soltado no chão, como forma de repreendê-lo depois de uma briga com a irmã?
X. Por que Alexandre Nardoni tentou ocultar e adulterar provas, como a fralda que foi usada para envolver a menina, lavada e pendurada no varal do apartamento, na qual ainda foi possível encontrar vestígios de sangue?
II. Que explicação Alexandre Nardoni pode dar para a evidência de que a pegada encontrada na cama foi feita com um chinelo que, tudo leva a crer, pertencia a ele?
III. Não é muita coincidência que Isabella tenha sido carregada por um adulto com estatura semelhante a de Alexandre Nardoni?
IV. De que maneira Alexandre Nardoni explica terem sido encontradas fibras de náilon da grade de proteção junto à janela em sua camiseta, que só puderam se fixar à roupa do indiciado graças a um movimento de pressão, como ele se debruçasse, e não apenas se pusesse próximo à janela?
V. O que fez Isabella de tão grave na festa a que compareceu com o pai e a madrasta na noite de 29 de março?
VI. Se o sangue encontrado no assoalho do Ford Ka de Alexandre Nardoni for de outra pessoa que não da filha, e ele permanece dizendo que não é de Isabella, de quem seria?
VII. Por que o casal demorou 14 minutos para acionar o resgate? Por que telefonou antes para a irmã, Cristiane Nardoni?
VIII. Por que teriam brigado Alexandre Nardoni e a mulher, Anna Carolina Jatobá, de acordo com o que relataram ter acontecido na noite do crime por testemunhas?
IX. O que explica Alexandre usar de expedientes tão violentos com os filhos, como suspender o filho mais velho, Pietro, 3 anos, no ar e o soltado no chão, como forma de repreendê-lo depois de uma briga com a irmã?
X. Por que Alexandre Nardoni tentou ocultar e adulterar provas, como a fralda que foi usada para envolver a menina, lavada e pendurada no varal do apartamento, na qual ainda foi possível encontrar vestígios de sangue?
Evitei por muito tempo entrar em terreno tão arenoso e que não me diz respeito em nada, ainda que me ofenda muito como ser humano, condição a que o assassino -ou assassinos- também se submete, por saber, ou melhor, fazer idéia da dor que deve sentir uma mãe que perde sua filha, única, recém saída dos cueiros e doce e carinhosa como só as mais elevadas criaturas angelicais podem ser. Também recusei abordá-lo de pronto por, precisamente, envolver acusações de foro tão acintoso a duas pessoas do convívio íntimo de Isabella. Minha praia é outra, como sabem, entretanto todos temos nossas inquietações de alma, ainda mais em se tratando de circunstâncias de tal maneira eivadas de paixão, na acepção nietzschiana do termo. Solto aqui as feras que unhavam-me o sótão no que tange a esta perversidade. Que é demasiado humana, sim, desgraçadamente.
