Saturday, April 26, 2008
Mao — A China vermelha como sangue
“Ninguém explicou Mao como nós”. A afirmação pode, naturalmente, soar presunçosa, mas é de modo impressionante, verdadeira, e foi feita por Jung Cheng, autora, junto com o marido, o historiador inglês Jon Halliday, de Mao — A história desconhecida (Companhia das Letras, 2006). De fato, a trajetória do líder comunista cuja atuação política foi, de longe, a mais sangrenta da História —Mao Tse-tung ceifou cerca de setenta milhões de vidas ao longo de 27 anos no poder—, é esmiuçada no portentoso trabalho de 954 páginas, desde seu nascimento no pequeno vale de Shaoshan, no interior da China, de uma família humilde, em 23 de dezembro de 1893, até seu desaparecimento aos 83 anos, em 9 de setembro de 1976, abrigado na mordomia de uma mansão especialmente construída para ele em Zhongnanhai que, entre outros luxos, dispunha de sistema antiterremoto.
Mao, quando ocupante do mais alto posto de comando de seu país, não mediu conseqüências ao lançar mão das mais vis artimanhas a fim de se perpetuar no governo da China. Cheng e Halliday apontam à página 387, a primeira do 30º capítulo, entitulado A China conquistada, o quão impiedoso era o déspota. Em 1948, com pressa em tomar Changchun, na Manchúria, ordenou ao comandante Lin Biao que fizesse a população se render de maneira rápida. Suas palavras foram, literalmente: “Façam de Changchun uma cidade de morte”. O inclemente cerco a Changchun contou com o bloqueio de alimentos, uma estratégia morbidamente brilhante para a materialização de seu intento. Os habitantes civis, de um momento para o outro, tinham apenas casca de árvores e capim (!) com que saciar a fome e muitos morreram de inanição. Resultado: a barbárie. Não eram raras estórias de gente brutalmente assassinada só porque tinha um pedaço de chão em que plantar e algumas reses. Eram tidos por iminentes membros da burguesia. Os relatórios enviados a Mao sobre o que passava no condado estavam sempre repletos de descrições tétricas de cruéis justiçamentos, como o de uma pessoa afogada em um tanque de água salgada, e outra, morta com óleo fervente despejado sobre sua cabeça. Estava constituído um Estado policial tão terrificante quanto eficaz, em que os cidadãos tinham de periodicamente acusar detentores de propriedades privadas. Atrocidades como o episódio em que um menino teve o coração arrancado enquanto vivo porque o pai era um modesto lavrador eram comuns. Quando perguntado acerca do motivo de ter feito aquilo, o homicida respondia sossegadamente: “O presidente Mão mandou que exterminássemos todos os inimigos da Revolução”.
Recebendo ajuda de outros tiranos, como Ióssif Stálin Djugachvíli Vissarionóvitch, Mao Tse-tung contava em transformar a China em uma potência mundial, montando para isso uma máquina de guerra extraordinária, jamais descuidando da alienação popular e da adulteração maniqueísta de informações e pensamentos. Auxiliado ainda por sua segunda esposa, com quem permaneceria casado até morrer, Jiang Qing, a madame Mao, que muitos consideram o verdadeiro cérebro por trás de todas as maldades postas em prática pelo marido, mesmo não tendo estado em tempo algum na origem das medidas políticas e nunca tendo passado de uma reles e muito obediente serva dele (“Eu era o cão do presidente Mao: quem quer que ele me pedisse para morder, eu mordia”), desde o instante em que se casaram, em 1938, Mao Tse-tung deu início à Revolução Cultural, que de revolução não tinha nada, muito pelo contrário: a tal “revolução” mergulhou a China em um atraso cultural sem precedentes acerca de tudo quanto dissesse respeito à manifestações artístico-culturais de seu reino, destruindo qualquer vestígio do que fora produzido na esfera da arte e da cultura chinesas, pretendendo com isso fazer com que a população se convencesse de que a História da China, de contribuições milenares que se disseminaram em todo o mundo, havia principiado com ele, inclusive o cinema, tão apreciado por Jiang Qiang. Madame Mao, confessou certa feita em um arroubo que “adorava” Greta Garbo e ...E o vento levou, que disse ter assistido umas dez vezes. “A cada vez, me emociono mais. Será que a China consegue produzir algo assim?”, questionava, como se ela e o marido não tivessem nada a ver com a supressão da sétima arte na China. O cinismo dos dois não conhecia limites.
Mao morreu sem nunca ter visto seus delírios de grandeza se tornar realidade. Passou seus últimos dias na lauta residência de Zhongnanhai, assistido por Meng Jin-yun, uma antiga namorada feita sua enfermeira, que o escutou dizer suas derradeiras palavras: “Sinto-me muito doente. Chame os médicos”. Mesmo no leito de morte, percebia-se em sua fala laivos do autoritarismo que dera o tom em sua existência sombria, pautada para a conquista da hegemonia a qualquer preço, ainda que imcomparável ao que empregara nos áureos tempos plúmbeos. Permanecera lúcido até o fim e em sua mente havia só um pensamento, como especulam Cheng e Halliday; o poder.
Ler esta obra é imprescindível para não se admitir que tantos crimes voltem a ser perpetrados contra a humanidade. Como sentenciou o expoente-mor do socialismo, Marx, a História só se repete como farsa. E se assim é, está mais do que na hora de a China abandonar a esquizofrenia em que se encontra e assumir-se uma nação democrática, com todas as vantagens —e desvantagens— que isso implica, ou se confessar uma forma de governo totalitária, ainda que em outros —e muito originais— moldes, com todas as vantagens —e desvantagens— que isso traz, o que é mais coerente, haja vista suas posições quanto ao Tibete, talvez inspiradas pelo espectro tão vivo de Mao, cujo retrato e o próprio cadáver, após 32 anos, ainda estão na praça Tiananmen, no centro de Pequim, despertando até hoje uma estranha admiração sob o atual regime, que declara-se seu herdeiro e perepetua veementemente seu mito.
Mao, quando ocupante do mais alto posto de comando de seu país, não mediu conseqüências ao lançar mão das mais vis artimanhas a fim de se perpetuar no governo da China. Cheng e Halliday apontam à página 387, a primeira do 30º capítulo, entitulado A China conquistada, o quão impiedoso era o déspota. Em 1948, com pressa em tomar Changchun, na Manchúria, ordenou ao comandante Lin Biao que fizesse a população se render de maneira rápida. Suas palavras foram, literalmente: “Façam de Changchun uma cidade de morte”. O inclemente cerco a Changchun contou com o bloqueio de alimentos, uma estratégia morbidamente brilhante para a materialização de seu intento. Os habitantes civis, de um momento para o outro, tinham apenas casca de árvores e capim (!) com que saciar a fome e muitos morreram de inanição. Resultado: a barbárie. Não eram raras estórias de gente brutalmente assassinada só porque tinha um pedaço de chão em que plantar e algumas reses. Eram tidos por iminentes membros da burguesia. Os relatórios enviados a Mao sobre o que passava no condado estavam sempre repletos de descrições tétricas de cruéis justiçamentos, como o de uma pessoa afogada em um tanque de água salgada, e outra, morta com óleo fervente despejado sobre sua cabeça. Estava constituído um Estado policial tão terrificante quanto eficaz, em que os cidadãos tinham de periodicamente acusar detentores de propriedades privadas. Atrocidades como o episódio em que um menino teve o coração arrancado enquanto vivo porque o pai era um modesto lavrador eram comuns. Quando perguntado acerca do motivo de ter feito aquilo, o homicida respondia sossegadamente: “O presidente Mão mandou que exterminássemos todos os inimigos da Revolução”.
Recebendo ajuda de outros tiranos, como Ióssif Stálin Djugachvíli Vissarionóvitch, Mao Tse-tung contava em transformar a China em uma potência mundial, montando para isso uma máquina de guerra extraordinária, jamais descuidando da alienação popular e da adulteração maniqueísta de informações e pensamentos. Auxiliado ainda por sua segunda esposa, com quem permaneceria casado até morrer, Jiang Qing, a madame Mao, que muitos consideram o verdadeiro cérebro por trás de todas as maldades postas em prática pelo marido, mesmo não tendo estado em tempo algum na origem das medidas políticas e nunca tendo passado de uma reles e muito obediente serva dele (“Eu era o cão do presidente Mao: quem quer que ele me pedisse para morder, eu mordia”), desde o instante em que se casaram, em 1938, Mao Tse-tung deu início à Revolução Cultural, que de revolução não tinha nada, muito pelo contrário: a tal “revolução” mergulhou a China em um atraso cultural sem precedentes acerca de tudo quanto dissesse respeito à manifestações artístico-culturais de seu reino, destruindo qualquer vestígio do que fora produzido na esfera da arte e da cultura chinesas, pretendendo com isso fazer com que a população se convencesse de que a História da China, de contribuições milenares que se disseminaram em todo o mundo, havia principiado com ele, inclusive o cinema, tão apreciado por Jiang Qiang. Madame Mao, confessou certa feita em um arroubo que “adorava” Greta Garbo e ...E o vento levou, que disse ter assistido umas dez vezes. “A cada vez, me emociono mais. Será que a China consegue produzir algo assim?”, questionava, como se ela e o marido não tivessem nada a ver com a supressão da sétima arte na China. O cinismo dos dois não conhecia limites.
Mao morreu sem nunca ter visto seus delírios de grandeza se tornar realidade. Passou seus últimos dias na lauta residência de Zhongnanhai, assistido por Meng Jin-yun, uma antiga namorada feita sua enfermeira, que o escutou dizer suas derradeiras palavras: “Sinto-me muito doente. Chame os médicos”. Mesmo no leito de morte, percebia-se em sua fala laivos do autoritarismo que dera o tom em sua existência sombria, pautada para a conquista da hegemonia a qualquer preço, ainda que imcomparável ao que empregara nos áureos tempos plúmbeos. Permanecera lúcido até o fim e em sua mente havia só um pensamento, como especulam Cheng e Halliday; o poder.
Ler esta obra é imprescindível para não se admitir que tantos crimes voltem a ser perpetrados contra a humanidade. Como sentenciou o expoente-mor do socialismo, Marx, a História só se repete como farsa. E se assim é, está mais do que na hora de a China abandonar a esquizofrenia em que se encontra e assumir-se uma nação democrática, com todas as vantagens —e desvantagens— que isso implica, ou se confessar uma forma de governo totalitária, ainda que em outros —e muito originais— moldes, com todas as vantagens —e desvantagens— que isso traz, o que é mais coerente, haja vista suas posições quanto ao Tibete, talvez inspiradas pelo espectro tão vivo de Mao, cujo retrato e o próprio cadáver, após 32 anos, ainda estão na praça Tiananmen, no centro de Pequim, despertando até hoje uma estranha admiração sob o atual regime, que declara-se seu herdeiro e perepetua veementemente seu mito.
