Monday, December 29, 2008
Fossaland urgente!
Dando seqüência ao que propus no post anterior, cá reproduzo mais um poema que expressa -ou, ao menos, tenta- essa angústia que é amar, em especial quando não se recebe de volta da razão de nosso afeto nem um décimo deste sentimento belo, digno e grandioso, e que se torna-se por conseguinte destrutivo. O nome desta composição poética que compartilho com vocês hoje é Olhos de mar na tormenta.
Enxugo os olhos
Das lágrimas
que me sulcam a face.
Noite escura, dia escuro
E a inconstância
De um barco em oceano aberto
Balançando de um lado para o outro
Quase sem ter como resistir
À imperícia de um timoneiro demente.
Dia escuro, noite negra
E o barco que se esmigalha
Nos recifes e, em silêncio, vai ao fundo.
Saturday, December 27, 2008
Poema à não-amizade
Pensei que seria mesmo capaz de resistir por tanto tempo ao arrebatamento imperativo de escrever, ainda mais sem emprego e estupidamente apaixonado, mesmo que não seja correspondido. Como podem constatar, não pude. Tenho a intenção de publicar aqui alguns poemas até que consiga sufocar esse sentimento que me sufoca. Emprestem os olhos a essa pequena epopéia do amor (infeliz) demais, cujo nome é mesmo do título do post, se não tiverem coisa melhor a fazer, como namorar, por exemplo. Se o fizerem, cortamos relações, principalmente se perderem a oportunidade de investir vosso tempo a pôr em prática minha sugestão. Belém, belém, nunca mais estou de bem até o ano que vem (só até o ano que vem). Desta vez, a trilha sonora foi Seu amor ainda é tudo, do gênio Moacyr Franco, na voz dos não inferiores talentos João Mineiro e Marciano. Aliás, por onde andam João Mineiro e Marciano?
I
Só as madrugadas são minhas testemunhas
(As madrugadas e as corujas, como esquecê-las?)
Do tudo o que empreendi para não mais
Deixar arder em mim
O desejo que me consome
E me faz prisioneiro e violentador
Da minha própria natureza
Justo quando necessito tanto me preservar.
II
O tolo apaixonado que me tornei
Não reconheço, não é-me familiar
Porque não sou assim, este não sou eu
Este é o homem que se escravizou
Que gritou para surdos
Que sentou à mesa com feras.
O homem em que você me transformou
é confuso, truculento, mas também não sou eu.
III
Ah! se eu fosse deveras sábio
E maduro e forte como você diz
Quão menos pedregosa seria minha estrada!
Conseguiria afinal ser senhor de meu destino
E meu cérebro
Assim como os raios de sol
De uma manhã de verão que dissipam as trevas
Sobrepor-se-ia a um espírito doente
IV
E me libertaria desse gólgota.
Reassumiria minha vida
Aqui ou em qualquer outro lugar também belicoso
Ignorá-lo-ia, enfim, sem sobressaltos;
Eu finalmente diria para mim mesmo
Convicto: Cavalheiro, esse amor não pode ser!
Pare, seja sensato, como sempre foi, e se convença
De uma vez por todas e responda:
V
É isso o que você quer?
Sim, direi a mim mesmo, é isso o que quero
E quero ainda muito mais.
O imperador que tudo sabe
E governa já provou
Que não é possível que seja de outro modo-
E provou também que não consigo resistir a uma promessa
De felicidade ainda que tão volátil
VI
E que de tão evanescente
Já sumiu e não se liquefez mais.
Você me procura, você me desatina
Você me quer tirar da minha rota.
Mais uma vez você,
Você que eu tanto amo,
Vem de novo a minha procura
Oferecendo nobremente os carinhos de sua amizade.
VII
Não posso amolecer, entretanto, pois
Foi muito penoso para mim virar o ser
Brutalizado e duro e máquina
Que hoje sou. Você, se quisesse de fato
Minha amizade
Ofertar-me-ia apenas
O seu tão imprescindível amor dialético.
VIII
E acredite: não ser amigo
Para mim também é sofrimento;
Porque degrada-me tão mais
Toda essa civilidade, esse não-viver
Que viver não me desperta
Nenhuma ânsia, sabor algum.
Vá ser feliz, aproveite sua juventude:
Ela passa.
IX
Deite seus belos olhos de esmeralda
Em todos os que encontrar
E receba afagos de outras mãos
Em seus cabelos de seda fulva.
Estique-se na relva
A repousar a cabeça
Nos colos todos que não são os meus
Afinal, é-se jovem por pouco tempo.
X
Sim, goze os verdes anos de sua vida reluzente!
A juventude se vai depressa, como todo o resto.
Igualmente fenecem
Céus e terras, e do mesmo modo, templos e reinos
E com efeito tudo morre.
Todavia, depois de tudo findo
Mesmo assim você não será sagaz o bastante para ver que só terá restado o amor:
O amor suicida e eterno que estou condenado a por você sentir.
Thursday, December 25, 2008
VT - Alexandre Soljenítsin
Eis o endereço da página onde se encontra a matéria sobre Alexandre Soljenítsin: http://www.youtube.com/watch?v=3GfXBZq66DQ.
Apenas um infeliz
Leitor amigo, estimada leitora!
Chegamos ao fim de mais um ano, o pior de minha vida, se querem saber. Não entrarei em detalhes, até para não trazer desgaste aos vossos olhos e lhes minar a paciência para com este escriba cheio de veleidades aqui, mas posso lhes saciar um pouco a curiosidade -a este momento da leitura já bastante aguçada, certamente- e comunicar que não consegui manter nenhum relacionamento amoroso com a pessoa cuja mera lembrança quase todas as noites rouba-me o sono e me furta o pensamento e agora, no finalzinho, perdi a ocupação que era o oxigênio de minha existência, graças às patranhas e estripulias econômicas de alguns senhores em Wall Street. Começo a concordar, ainda que parcialmente, com Harold Pinter, dramatrugo norte-americano morto há algumas horas, quando disse que "os crimes cometidos pelos Estados Unidos têm sido sistemáticos, constantes, clínicos, sem remorso e amplamente registrados, mas ninguém fala sobre isso". Afirmei que aquiescia com Pinter somente em parte porque a imprensa do mundo todo comenta essa crise financeira e continuará a fazê-lo (e deste modo deve ser). Entretanto, estou crescidinho o bastante para saber que Obama não vai change coisa alguma. Nem ele nem ninguém. Tudo vai correr a exemplo de sempre, como grande parte dos colapsos planetários: com o andar da carroça, os trouxas se ajeitam. Mauvais vie.
Natal para mim é tempo de reflexão, sobretudo. A esse respeito, matutei um pouco e constatei que não escrevi rigorosamente nada sobre Frank Sinatra, um dos raros intérpretes de que gosto, para não dizer o único, cuja primeira década de morte passou-se em 14 de maio. E por falar na indesejada das gentes, o escritor russo Alexandre Soljenítsin foi outro que saiu da vida para entrar na História (com todo o merecimento e com toda a verdade, ao contrário do ditador sul-riograndense e fanfarrão que lavrou a máxima em carta suicida) este ano, no qual teria completado nove decênios sobre o sol que pouco o protegeu, em 11 de dezembro. Soljenítsin morreu no dia três de agosto, que por sinal é meu aniversário. Temos a partir daí mais uma estreita -e sinistra- ligação para todo o sempre. Sobre ele, fiz para a televisão uma reportagem de que falarei noutro texto. Tento me redimir agora quanto ao cantor, nascido em Hoboken, Nova Jérsei, em 12 de dezembro de 1915, com a poesia abaixo, de mesmo título que este post, escrita num jato, com muito Sinatra na cuca (e só). Apesar de seu conteúdo fatalista, acreditem: estou esperançoso. Burrice? Loucura? Não. Apenas confiança. Em mim, nEle, nas minhas escolhas, nos homens de boa vontade. Feliz Natal e até 2009.
Sim, sou um infeliz,
mistura de tudo quanto deu errado,
não exatamente triste, mas nostálgico e melancólico,
saudoso da vida que não tive
e da vida que não tive por incompetência e covardia de mestre.
Escondo-me atrás de meus temores
e deles faço meu castelo e fortaleza,
mas a noite vai caindo, lenta e irremediável,
gatos vadios logo ronronam na mansarda
e me lembram da solidão que não me regenera
(porém não me deteriora).
Noite alta. Embora fatigado de morte
não durmo. Um homem de alma tinta de azul.
O espírito que resiste, borboletas na luz descarnada e fria,
a carne a definhar, coração aos pinotes, de tolo, pois o amor,
nunca o vivi.
Não espero coisa alguma de ninguém
nem quero esperar. Algum consolo me desperta
o homem tomado de amargura que sou hoje,
que sequer bebe ou xinga ou dá murros na parede.
Eu, eu só me conforma e me mato aos poucos.
