Thursday, December 25, 2008
Apenas um infeliz
Leitor amigo, estimada leitora!
Chegamos ao fim de mais um ano, o pior de minha vida, se querem saber. Não entrarei em detalhes, até para não trazer desgaste aos vossos olhos e lhes minar a paciência para com este escriba cheio de veleidades aqui, mas posso lhes saciar um pouco a curiosidade -a este momento da leitura já bastante aguçada, certamente- e comunicar que não consegui manter nenhum relacionamento amoroso com a pessoa cuja mera lembrança quase todas as noites rouba-me o sono e me furta o pensamento e agora, no finalzinho, perdi a ocupação que era o oxigênio de minha existência, graças às patranhas e estripulias econômicas de alguns senhores em Wall Street. Começo a concordar, ainda que parcialmente, com Harold Pinter, dramatrugo norte-americano morto há algumas horas, quando disse que "os crimes cometidos pelos Estados Unidos têm sido sistemáticos, constantes, clínicos, sem remorso e amplamente registrados, mas ninguém fala sobre isso". Afirmei que aquiescia com Pinter somente em parte porque a imprensa do mundo todo comenta essa crise financeira e continuará a fazê-lo (e deste modo deve ser). Entretanto, estou crescidinho o bastante para saber que Obama não vai change coisa alguma. Nem ele nem ninguém. Tudo vai correr a exemplo de sempre, como grande parte dos colapsos planetários: com o andar da carroça, os trouxas se ajeitam. Mauvais vie.
Natal para mim é tempo de reflexão, sobretudo. A esse respeito, matutei um pouco e constatei que não escrevi rigorosamente nada sobre Frank Sinatra, um dos raros intérpretes de que gosto, para não dizer o único, cuja primeira década de morte passou-se em 14 de maio. E por falar na indesejada das gentes, o escritor russo Alexandre Soljenítsin foi outro que saiu da vida para entrar na História (com todo o merecimento e com toda a verdade, ao contrário do ditador sul-riograndense e fanfarrão que lavrou a máxima em carta suicida) este ano, no qual teria completado nove decênios sobre o sol que pouco o protegeu, em 11 de dezembro. Soljenítsin morreu no dia três de agosto, que por sinal é meu aniversário. Temos a partir daí mais uma estreita -e sinistra- ligação para todo o sempre. Sobre ele, fiz para a televisão uma reportagem de que falarei noutro texto. Tento me redimir agora quanto ao cantor, nascido em Hoboken, Nova Jérsei, em 12 de dezembro de 1915, com a poesia abaixo, de mesmo título que este post, escrita num jato, com muito Sinatra na cuca (e só). Apesar de seu conteúdo fatalista, acreditem: estou esperançoso. Burrice? Loucura? Não. Apenas confiança. Em mim, nEle, nas minhas escolhas, nos homens de boa vontade. Feliz Natal e até 2009.
Sim, sou um infeliz,
mistura de tudo quanto deu errado,
não exatamente triste, mas nostálgico e melancólico,
saudoso da vida que não tive
e da vida que não tive por incompetência e covardia de mestre.
Escondo-me atrás de meus temores
e deles faço meu castelo e fortaleza,
mas a noite vai caindo, lenta e irremediável,
gatos vadios logo ronronam na mansarda
e me lembram da solidão que não me regenera
(porém não me deteriora).
Noite alta. Embora fatigado de morte
não durmo. Um homem de alma tinta de azul.
O espírito que resiste, borboletas na luz descarnada e fria,
a carne a definhar, coração aos pinotes, de tolo, pois o amor,
nunca o vivi.
Não espero coisa alguma de ninguém
nem quero esperar. Algum consolo me desperta
o homem tomado de amargura que sou hoje,
que sequer bebe ou xinga ou dá murros na parede.
Eu, eu só me conforma e me mato aos poucos.
