Saturday, December 27, 2008

 

Poema à não-amizade

Pensei que seria mesmo capaz de resistir por tanto tempo ao arrebatamento imperativo de escrever, ainda mais sem emprego e estupidamente apaixonado, mesmo que não seja correspondido. Como podem constatar, não pude. Tenho a intenção de publicar aqui alguns poemas até que consiga sufocar esse sentimento que me sufoca. Emprestem os olhos a essa pequena epopéia do amor (infeliz) demais, cujo nome é mesmo do título do post, se não tiverem coisa melhor a fazer, como namorar, por exemplo. Se o fizerem, cortamos relações, principalmente se perderem a oportunidade de investir vosso tempo a pôr em prática minha sugestão. Belém, belém, nunca mais estou de bem até o ano que vem (só até o ano que vem). Desta vez, a trilha sonora foi Seu amor ainda é tudo, do gênio Moacyr Franco, na voz dos não inferiores talentos João Mineiro e Marciano. Aliás, por onde andam João Mineiro e Marciano?



I
Só as madrugadas são minhas testemunhas
(As madrugadas e as corujas, como esquecê-las?)
Do tudo o que empreendi para não mais
Deixar arder em mim
O desejo que me consome
E me faz prisioneiro e violentador
Da minha própria natureza
Justo quando necessito tanto me preservar.

II
O tolo apaixonado que me tornei
Não reconheço, não é-me familiar
Porque não sou assim, este não sou eu
Este é o homem que se escravizou
Que gritou para surdos
Que sentou à mesa com feras.
O homem em que você me transformou
é confuso, truculento, mas também não sou eu.

III
Ah! se eu fosse deveras sábio
E maduro e forte como você diz
Quão menos pedregosa seria minha estrada!
Conseguiria afinal ser senhor de meu destino
E meu cérebro
Assim como os raios de sol
De uma manhã de verão que dissipam as trevas
Sobrepor-se-ia a um espírito doente

IV
E me libertaria desse gólgota.
Reassumiria minha vida
Aqui ou em qualquer outro lugar também belicoso
Ignorá-lo-ia, enfim, sem sobressaltos;
Eu finalmente diria para mim mesmo
Convicto: Cavalheiro, esse amor não pode ser!
Pare, seja sensato, como sempre foi, e se convença
De uma vez por todas e responda:

V
É isso o que você quer?
Sim, direi a mim mesmo, é isso o que quero
E quero ainda muito mais.
O imperador que tudo sabe
E governa já provou
Que não é possível que seja de outro modo-
E provou também que não consigo resistir a uma promessa
De felicidade ainda que tão volátil

VI
E que de tão evanescente
Já sumiu e não se liquefez mais.
Você me procura, você me desatina
Você me quer tirar da minha rota.
Mais uma vez você,
Você que eu tanto amo,
Vem de novo a minha procura
Oferecendo nobremente os carinhos de sua amizade.

VII
Não posso amolecer, entretanto, pois
Foi muito penoso para mim virar o ser
Brutalizado e duro e máquina
Que hoje sou. Você, se quisesse de fato
Minha amizade
Ofertar-me-ia apenas
O seu tão imprescindível amor dialético.

VIII
E acredite: não ser amigo
Para mim também é sofrimento;
Porque degrada-me tão mais
Toda essa civilidade, esse não-viver
Que viver não me desperta
Nenhuma ânsia, sabor algum.
Vá ser feliz, aproveite sua juventude:
Ela passa.

IX
Deite seus belos olhos de esmeralda
Em todos os que encontrar
E receba afagos de outras mãos
Em seus cabelos de seda fulva.
Estique-se na relva
A repousar a cabeça
Nos colos todos que não são os meus
Afinal, é-se jovem por pouco tempo.

X
Sim, goze os verdes anos de sua vida reluzente!
A juventude se vai depressa, como todo o resto.
Igualmente fenecem
Céus e terras, e do mesmo modo, templos e reinos
E com efeito tudo morre.
Todavia, depois de tudo findo
Mesmo assim você não será sagaz o bastante para ver que só terá restado o amor:
O amor suicida e eterno que estou condenado a por você sentir.

Comments: Post a Comment



<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?