Friday, December 21, 2007
Trinta anos sem Clarice Lispector
Caros, com algum atraso, como já é hábito -abominável-, publico texto em memória de Clarice Lispector, morta a 9 de dezembro de 1977. Boa leitura.
Perto do coração de Clarice
Mas sobretudo donde vem essa certeza de estar vivendo? Essa frase, que para muitos passa despercebida, está em Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, publicado em 1944, quando a escritora tinha 24 anos, que para a maioria dos viventes comuns passam de maneira leve e até inconseqüente. Mas o leitor fica surpreso mesmo é ao saber que a obra fora produzida década antes, quando Clarice era pouco mais que uma criança, em um tempo em que as crianças eram, de fato, crianças, e como tais, sonhavam. Clarice continuou sonhando pela vida afora e conseguiu fazer-me sonhar um pouco também. Lauro Escorel declarou que sua escrita revela “personalidade de romancista verdadeiramente excepcional, pelos seus recursos técnicos e pela força da sua natureza inteligente e sensível”. Já Álvaro Lins, em resenha baseada na leitura dos originais, qualifica-o como uma “experiência incompleta”. Venceu Escorel: a autora recebe pelo livro, considerado o melhor romance daquele ano, o prêmio Graça Aranha.
Clarice vale-se de Joana, a protagonista do romance, para externar seus sentimentos mais íntimos, fazendo-o também com Macabéa, de A hora da estrela, a nordestina feia, desenxabida e ingênua, que passa pela vida sem viver, sem ao menos ter idéia do que seja a vida, existe apenas. As personagens principais da obra clariceana, mulheres atormentadas e solitárias, confundem-se com a própria autora, como é da natureza mesma da literatura. Clarice parecia querer esclarecer que elas eram ela, em eterna luta contra seus demônios e o que não desejava ser e o que aspirava continuar sendo. A escritora, nascida em uma cidadela do interior da Ucrânia e dona de uma beleza capaz de adiamantar o espelho, mesmo depois de madura, era Macabéa. E todos os que temos nossas incertezas e hesitações diante da vida, amamos e não recebemos de volta o amor que esperávamos e merecemos, ou queremos mudar, ainda que nos pelemos de medo, a somos, também.
Joana talvez seja o personagem mais enigmático saído da imaginação de Clarice. A menina tímida, irrequieta e questionadora torna-se uma mulher infeliz, que vê ruir o casamento com o homem que amava, talvez transformado em outro, talvez o mesmo sempre—ela é que não conseguira enxergar—e que passa a viver sem entender muito bem com que propósito, meio semelhante a Macabéa, entretanto muito mais sutil, impenetrável e difícil de se definir com alguma precisão. Na composição da protagonista de A hora da estrela percebem-se cuidados, contudo é estereotipada, assim como os demais personagens, o que nem de longe tira o mérito do livro, muito bem escrito e humano, como tudo no histórico literário da autora.
Clarice era introspectiva ao extremo, como melhor evidenciou antológica entrevista dada por ela ao Panorama Especial, da TV Cultura, apresentado pelo jornalista Júlio Lerner, em fevereiro de 1977. Estava cansadíssima, como a própria escritora chegou a confidenciar. Quando indagada de quê, alegou que era de si mesma. Mal sabia que já eram-lhes as entranhas corroídas por um adenocarcinoma de ovário, o que a matou dez meses depois, a 9 de dezembro, na véspera de seu 57º aniversário. O programa só foi ar em 28 de dezembro, por causa de compromisso firmado entre Clarice e a emissora de ser transmitido apenas quando já estivesse morta, talvez pela vergonha que sentiria por ter se exposto tanto, o que definitivamente odiava, embora o fizesse de maneira magistral, e nada piegas, em sua obra.
Abordando os meandros da alma da criatura humana como ninguém, Clarice delineou os conflitos amorosos pelos quais pode passar o homem, é claro que não todos, porque nem ela nem ninguém pode, nunca poderá. Clarice era de fato uma pergunta, como disse de si mesma certa feita. Casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente, mas tudo indica que foi Lúcio Cardoso a quem amou de verdade, um pouco como Joana, um amor idealizado e que nunca consumou-se: Lúcio era homossexual. Trocou cartas com o escritor mineiro por anos a fio e reclamava da ausência física e emocional do amigo, que retrucava entre compadecido e enfadado: “Não há afastamento algum. Sou muito seu amigo e ficaria deveras furioso se você não acreditasse”. Clarice não deixou claro se cria ou não, porque necessitava ter bem perto aos que queria bem, mas ficou legitimamente abalada quando da morte do autor de Crônica da casa assassinada. Os dois foram cúmplices até na tragédia: na madrugada de 14 de setembro de 1966, a escritora dorme com um cigarro aceso e provoca um incêndio. Seu quarto ficou totalmente destruído. Com inúmeras queimaduras pelo corpo, passou três dias sob o risco de morte, mas para ela o pior foi constatar que a mão direita ficara aleijada. Lúcio, depois de ter sofrido um derrame cerebral que terminou por levá-lo à sepultura, da mesma maneira teve limitações quanto ao uso dos membros superiores. Clarice tornava-se mais e mais Macabéa, para sempre.
Se Machado de Assis ficou conhecido como o bruxo do Cosme Velho, Clarice Lispector era a feiticeira de Tchetchelnik, opinião que Otto Lara Resende também tinha dela. Em comentário a José Castello, dissera a respeito da autora: “Você deve tomar muito cuidado com Clarice. Não se trata de literatura, mas de bruxaria”. Clarice encantava mesmo: desnudando sua alma, desarmou o meu espírito.
Mas sobretudo donde vem essa certeza de estar vivendo? Essa frase, que para muitos passa despercebida, está em Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, publicado em 1944, quando a escritora tinha 24 anos, que para a maioria dos viventes comuns passam de maneira leve e até inconseqüente. Mas o leitor fica surpreso mesmo é ao saber que a obra fora produzida década antes, quando Clarice era pouco mais que uma criança, em um tempo em que as crianças eram, de fato, crianças, e como tais, sonhavam. Clarice continuou sonhando pela vida afora e conseguiu fazer-me sonhar um pouco também. Lauro Escorel declarou que sua escrita revela “personalidade de romancista verdadeiramente excepcional, pelos seus recursos técnicos e pela força da sua natureza inteligente e sensível”. Já Álvaro Lins, em resenha baseada na leitura dos originais, qualifica-o como uma “experiência incompleta”. Venceu Escorel: a autora recebe pelo livro, considerado o melhor romance daquele ano, o prêmio Graça Aranha.
Clarice vale-se de Joana, a protagonista do romance, para externar seus sentimentos mais íntimos, fazendo-o também com Macabéa, de A hora da estrela, a nordestina feia, desenxabida e ingênua, que passa pela vida sem viver, sem ao menos ter idéia do que seja a vida, existe apenas. As personagens principais da obra clariceana, mulheres atormentadas e solitárias, confundem-se com a própria autora, como é da natureza mesma da literatura. Clarice parecia querer esclarecer que elas eram ela, em eterna luta contra seus demônios e o que não desejava ser e o que aspirava continuar sendo. A escritora, nascida em uma cidadela do interior da Ucrânia e dona de uma beleza capaz de adiamantar o espelho, mesmo depois de madura, era Macabéa. E todos os que temos nossas incertezas e hesitações diante da vida, amamos e não recebemos de volta o amor que esperávamos e merecemos, ou queremos mudar, ainda que nos pelemos de medo, a somos, também.
Joana talvez seja o personagem mais enigmático saído da imaginação de Clarice. A menina tímida, irrequieta e questionadora torna-se uma mulher infeliz, que vê ruir o casamento com o homem que amava, talvez transformado em outro, talvez o mesmo sempre—ela é que não conseguira enxergar—e que passa a viver sem entender muito bem com que propósito, meio semelhante a Macabéa, entretanto muito mais sutil, impenetrável e difícil de se definir com alguma precisão. Na composição da protagonista de A hora da estrela percebem-se cuidados, contudo é estereotipada, assim como os demais personagens, o que nem de longe tira o mérito do livro, muito bem escrito e humano, como tudo no histórico literário da autora.
Clarice era introspectiva ao extremo, como melhor evidenciou antológica entrevista dada por ela ao Panorama Especial, da TV Cultura, apresentado pelo jornalista Júlio Lerner, em fevereiro de 1977. Estava cansadíssima, como a própria escritora chegou a confidenciar. Quando indagada de quê, alegou que era de si mesma. Mal sabia que já eram-lhes as entranhas corroídas por um adenocarcinoma de ovário, o que a matou dez meses depois, a 9 de dezembro, na véspera de seu 57º aniversário. O programa só foi ar em 28 de dezembro, por causa de compromisso firmado entre Clarice e a emissora de ser transmitido apenas quando já estivesse morta, talvez pela vergonha que sentiria por ter se exposto tanto, o que definitivamente odiava, embora o fizesse de maneira magistral, e nada piegas, em sua obra.
Abordando os meandros da alma da criatura humana como ninguém, Clarice delineou os conflitos amorosos pelos quais pode passar o homem, é claro que não todos, porque nem ela nem ninguém pode, nunca poderá. Clarice era de fato uma pergunta, como disse de si mesma certa feita. Casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente, mas tudo indica que foi Lúcio Cardoso a quem amou de verdade, um pouco como Joana, um amor idealizado e que nunca consumou-se: Lúcio era homossexual. Trocou cartas com o escritor mineiro por anos a fio e reclamava da ausência física e emocional do amigo, que retrucava entre compadecido e enfadado: “Não há afastamento algum. Sou muito seu amigo e ficaria deveras furioso se você não acreditasse”. Clarice não deixou claro se cria ou não, porque necessitava ter bem perto aos que queria bem, mas ficou legitimamente abalada quando da morte do autor de Crônica da casa assassinada. Os dois foram cúmplices até na tragédia: na madrugada de 14 de setembro de 1966, a escritora dorme com um cigarro aceso e provoca um incêndio. Seu quarto ficou totalmente destruído. Com inúmeras queimaduras pelo corpo, passou três dias sob o risco de morte, mas para ela o pior foi constatar que a mão direita ficara aleijada. Lúcio, depois de ter sofrido um derrame cerebral que terminou por levá-lo à sepultura, da mesma maneira teve limitações quanto ao uso dos membros superiores. Clarice tornava-se mais e mais Macabéa, para sempre.
Se Machado de Assis ficou conhecido como o bruxo do Cosme Velho, Clarice Lispector era a feiticeira de Tchetchelnik, opinião que Otto Lara Resende também tinha dela. Em comentário a José Castello, dissera a respeito da autora: “Você deve tomar muito cuidado com Clarice. Não se trata de literatura, mas de bruxaria”. Clarice encantava mesmo: desnudando sua alma, desarmou o meu espírito.
