Friday, January 25, 2008

 

Duas caras é uma novela de bom gosto. A política, de péssimo.

Excelente o capítulo de quinta-feira retrasada, 10 de janeiro, da novela Duas Caras, exibida de segunda a sábado pela Rede Globo de Televisão. Aguinaldo Silva, o autor da trama, fez clara referência ao livro A marca humana, The human stain, no original, traduzido pelo poeta e professor Paulo Henriques Brito, do norte-americano Philip Roth, um de meus escritores favoritos, quando dois alunos que, matriculados em um curso da universidade que freqüentam, nunca comparecem às aulas. Por uma incrível coincidência, absolutamente possível na vida real, ambos são negros. O professor, Francisco Macieira, vivido na história global pelo ator José Wilker, pergunta à classe se o estudante existe ou seria um zumbi. Na obra de Roth, o termo usado é spook, que tanto pode significar fantasma ou definir pejorativamente o indivíduo de ascendência africana, mais um ponto a favor para Silva, que soube adaptar muito bem a expressão para o português e cultura brasileira.

Sabendo que o mestre fizera tal comentário, Rudolph Stenzel, o tal zumbi, volta à sala de aula e pede para que Macieira repita o que dissera, o que faz sem o menor receio, não contando que Stenzel tinha na algibeira do casaco um gravador. O aluno se dirige a uma delegacia de polícia e registra queixa de racismo contra o acadêmico, que certamente será punido, quiçá expulso da instituição, como ocorreu com o personagem da obra de Roth, o septuagenário Coleman Silk, que ainda tem contra si o fato de envolver-se, mais sexual que amorosamente, com uma jovem e bela —porém maltratada— faxineira da universidade, Faunia Farley, e esconder sua origem judia. Cenas para os próximos capítulos.

Em poucos minutos de imagens, o novelista consegue provar que o teatro dos vampiros pode ser um pouco menos medíocre e provocar a reflexão, dando uma sonora bofetada nas múltiplas caras da religião pseudomoralista chamada esquerda que verdadeiramente reina não só no Brasil, como na América Latina, e reivindica exclusivamente para si a luta pelo direito duzoprimidu, preocupada na verdade só com a melhoria de suas próprias vidas, valendo-se de tudo quanto é gênero de demagogia, golpismo e picaretagem, já que não podem tornar ao menos um pouco mais digna a vida da população. O complexo de vira-latas rodrigueano vira desculpa para tudo, e os coitadinhos sempre acabam conseguindo puxar a brasa para a sua sardinha, galgando sorrateiramente cargos na esfera pública, assim como quem não quer nada, até se tornarem nada mais nada menos que presidentes da República.


Por que será que penso que o episódio em que Matilde Ribeiro, titular da Secretaria de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial, que tem status de ministério, torrou em média, 14.300 reais por mês usando cartão de crédito corporativo, exclusivo a essas autoridades, vai ter trajetória parecida? É, dona Matilde... Vossa senhoria é mais igual que os outros, principalmente que os irmãos de raça. De fato, o brasileiro é muito racista. Não pode ver um crioulo se dando bem que já começa a perseguir. Se for mulher, tanto pior. É muito oportuno lembrar que fora descoberto que Benedita da Silva, quando ministra da Ação Social, no primeiro mandato do presidente Lula, pagou com dinheiro do Tesouro viagens à Argentina, Portugal e Estados Unidos, além de ter sido acusada de enriquecimento ilícito. À terra de Jorge Luis Borges, foi para tomar parte no "12º Café da Manhã Anual da Oração", evento religioso promovido por igrejas evangélicas argentinas, e portanto nada oficial -haja visto que a República Federativa do Brasil é laica- com nada de interesse público, nada com nada. Benedita recebeu o bilhete azul. Com Matilde, o completamente imprescindível é acontecer o mesmo. Bené hoje é secretária de Ação Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro. Matilde, se sair, também terá, mais cedo ou mais tarde, um lugarzinho qualquer. Infelizmente. Eles sempre acabam reaparecendo das sepulturas da irrelevância, bancados pelos relevantes, é claro. Por proselitismo ou rabo-preso mesmo, que no fim, são sinônimos. Não me cutuca, que eu não te cutuco, companheiro. Ou para passar a imagem de plurais, tolerantes, flexíveis, racionais, tudo friamente arquitetado, sem ninguém dar ponto sem nó. Uma mão lava a outra e duas lavam os países baixos e adjacências. Hoje estou por cima, mas amanhã, pode ser você, portanto lembre-se de mim e do que sei a seu respeito. Assim é a política na República da Sunga. E política não é isso.

Nunca antes na história desse país, misturou-se tão sem-vergonhamente, perdoem-me o neologismo, o público e o privado. Demorou 28 anos, mas valeu a pena. Quem sabe eles não compensem até essas quases três décadas de vagabundismo e pura encenação, bem canastrã, diga-se, ficando período duas vezes maior no puder (toc, toc, toc). Competência para tanto têm,
e ainda dispõem da ajuda da oposição -inoperante, fraca, desarticulada-, que digladia contra si mesma e não consegue sequer escolher entre Gilberto Kassab ou Geraldo Alckmin para candidato a prefeito de São Paulo. Não elegerá nem síndico de prédio no subúrbio, imagine um chefe de Estado. E Aécio Neves manda tudo às favas, e em especial suas convicções, se é que as teve algum dia, e vira, assim como quem não quer nada, mineiramente, o sucessor, eleito, de Lula, que vira ministro-chefe da Casa Civil, ou coisa que o valha, e volta em 2014, com a faixa presidencial a tiracolo e Aécio Neves como... ministro-chefe da Casa Civil, ou coisa que o valha. Fora do PSDB, evidentemente, que ele há de esquecer bem rápido.

Não, caros leitores, não tenho nenhuma bola de cristal aqui, só a argúcia e o senso de observação sempre tinindo, modéstia à parte. Aposto meu mindinho esquerdo, correndo o risco de ter apenas isso, um defeito físico, em comum com o atual inquilino do Palácio da Alvorada, se as coisas se encaminharem de modo diferente. Não é preciso ter título de PhD da Sorbonne para saber como a novela termina, muito menos se segue toda a vida assim, reprisada, reprisada, reprisada... E de novela, telenovela, novela mesmo, Aguinaldo Silva é quem entende do riscado, ainda que também tenham sido pouco surpreendentes os capítulos de sua trama.

Comments:
Good words.
 
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