Saturday, July 05, 2008

 

Abrigo ao passado

Detalhes da última apresentação do Legião Urbana em Brasília são expostos no documentário Dê-me abrigo

Um silêncio de quase dois anos estava para ser quebrado. Com duas horas de atraso, a banda Legião Urbana subiu ao palco construído no estádio Mane Garrincha às nove horas da noite de 18 de junho de 1988. Renato Russo, vocalista e líder do grupo, mal podia conter a ansiedade. “Esperava-se algo grandioso”, completa Dado Villa-Lobos, guitarrista do Legião.

Mas só expectativas não foram suficientes. Nunca são. Faltou planejamento. Faltou responsabilidade. Resultado: sobraram confusão, correria e aquele gosto de desencanto típico de situações em que o que se vê bem diante dos olhos é um ídolo a bater boca com a platéia, numerosa, excessivamente numerosa: 40 mil dentro do estádio e mais três dezenas de milhares ávidos por entrar. “Espantei-me com a quantidade de gente”, pontua o jornalista Irlam Rocha Lima, que cobriu o show para o jornal Correio Braziliense.

Renato soltava da garganta o vozeirão poderoso para interpretar a primeira canção, “Que país é esse ?”, quando começava a tomar corpo o tumulto que estouraria em breve, junto com as bombas, que espocavam aqui e acolá, espalhando a animosidade. Alguém sobe à ribalta e agarra o cabeça da Legião, que mostra-se visivelmente contrafeito, entretanto ainda sereno. No momento em que presencia seguranças dando porrada em um rapaz, não agüenta e grita para que o soltem. A partir desse episódio, a situação vai num crescendo e Renato se exalta mais e mais, assim como o público. Trava-se um embate entre o cantor e os fãs, que não eram lá muito chegados a ouvir umas verdades e ainda não sabiam o que iam ser quando crescessem, embora já estivessem bem crescidinhos. “Estamos com a vida ganha”, bradou Renato para um bando de arruaceiros. Em outra ocasião, questiona o comportamento de mais um rebel without a cause, sugerindo que aquela truculência toda fosse falta de mulher, o que só serviu para incendiar mais o recinto: uma faixa feita de bandeira (levantada em defesa sabe Deus de que causa) e à qual havia sido ateado fogo cai no chão revestido de um plástico negro, instalado para que se tentasse preservar a grama. As chamas se disseminam rápido e o Legião resolve interromper o espetáculo, não sem antes apresentar, muito a propósito, a música Será, a dos versos brigar para quê? (se é sem querer).

A platéia acreditava que o conjunto tinha dado um tempo só até as coisas retomarem seu curso. Ao se certificarem de que Renato Russo e sua trupe não mais voltariam, nunca mais, intensificaram a selvageria. Desta vez fora do estádio. “O Eixo Monumental ficou todo quebrado”, lembra Rodrigo Amaral, um dos produtores do show. Fernando Artigas, outro dos (ir)responsáveis pelo evento, faz menção à negligência da Polícia Militar do Distrito Federal. “A PM não atuou como o combinado: chegou ao estádio às sete da noite. Era para ter chegado às dez da manhã”. Rafael Borges, empresário da banda à época, deu uma de joão-sem-braço e sem língua: simplesmente não se manifestou. Porém, no dia da quase catastrófica performance do Legião, cunhou cinicamente uma pérola, citada por Amaral: “Rock ´n roll é isso mesmo. O Sex Pistols faz show de vinte minutos e todo mundo gosta”. Se todo mundo gostasse, não teria acabado, muito menos da maneira como acabou. Verdade seja dita: com um empresário como Rafael Borges, banda nenhuma precisa de Sex Pistols como exemplo.

Dê-me abrigo foi exibido às nove da noite da última quarta-feira, 18 de junho de 2008, exatas duas décadas após o acontecimento que é tema de seu enredo, no auditório da biblioteca do Centro Universitário de Brasília -UniCEUB- e é o trabalho de conclusão de curso de Ana Carolina Bussacos Maranhão, Beatriz Leal Craveiros e Jânia Bárbara de Sousa, estudantes de Comunicação Social-Jornalismo da instituição. Foi produzido em 2008 e tem 56 minutos.

Comments:
Ahh Giancarlo! Que legal o seu texto!! Você não me conhece, eu sou a Beatriz de quem você fala aí no último parágrafo! Sem saber se você gostou ou não do filme, é muito legal ver qualquer tipo de reação sobre o nosso singelo trabalho. E o seu texto então, que super fez juz à causa! Muito obrigada, é muita honra aparecer por aqui no seu blog, em meio a tantos outros textos bons!

Se puder, só muda ali no fim, que quem falou o negócio do Sex Pistols foi o Borges, e não o Amaral!! Coitado do Amaral, tão tranquilo, na dele, hahahahaha

Mas, de novo, muito obrigada!

ps: estamos reeditando o filme, agora com menos minutos e ainda mais informações! Está quase no fim... Quando for o caso, te aviso, ok?

Abraço!
 
Olá Giancarlo,

Mais uma vez estou aqui. Desta vez para te avisar que vai ter uma exibição do filme finalizado e melhor editado nesta quinta-feira (6/8), às 20h30, no Espaço Cultural Anatel (setor de autarquias sul).

Abraço!
 
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