Sunday, August 03, 2008

 

Uma tarde com o demônio

Heath Ledger solta as bruxas e compõe personagem que já nasce clássico em Batman - O cavaleiro das trevas

Há quase um mês queria assistir àquele que já é, sem sombra de dúvida, o melhor filme da série Batman. Trata-se, claro, de O cavaleiro das trevas, dirigido por Christopher Nolan e protagonizado pelo ator galês Christian Bale. Nunca fui aficionado por heróis de histórias em quadrinhos, sequer jamais tive o menor gosto pelo contéudo dos balões com as falas de personagens que, desde tenríssima idade, sempre soube não terem vínculo algum com o mundo real, com a vida como ela é, para lembrar Nelson Rodrigues - esse sim, meu herói, meu salvador, fonte que sacia há pelo década e meia minha sede de tentar entender a alma humana, com todas as particularidades que lhe permite a psiquiatria. Assim permaneço: continuo a não apreciar HQs, tampouco seus heroizinhos anabolizados, embora tão frágeis ao mesmo tempo. Logo, não foi nada dessas coisas o que me levou hoje à tarde à sala de projeção de um complexo comercial próximo aqui de casa. Ponto, parágrafo.
Já tinha lido muito a respeito do desempenho do ator australiano Heath Ledger no longa-metragem de estarrecedores e algo cansativos até mesmo para os mais ardorosos fãs das peripécias do Homem-morcego150 minutos. Não deu outra: precisei conferir de perto, ou melhor, de longe, por causa da recente miopia de cerca de dois graus. Fui ao cinema só por causa de Ledger e sabia que não me desapontaria. Heath Ledger, concorrente ao Oscar de melhor ator em por sua composição primorosa do caubói solitário, incompreendido e que apaixona-se depois de certa resistência pelo companheiro de lida, continua por seu trabalho em O cavaleiro das trevas a ser um de meus maiores ídolos na tela grande.
Seu papel, o Coringa - ou Joker - é para mim tudo o que importa na trama. Desde o princípio da fita, quando arrebenta paredes e padrões morais para roubar um banco, à última cena em que toma parte, seus gestos, os do Coringa, os trejeitos, o modo de caminhar, o tom de voz do arquivilão, parecem ter sido milimetricamente pensados. O resultado? Incômodo, como a arte deve ser. Ledger consegue ao encarnar o palhaço demoníaco de Gotham City despertar nos cinespectadores o melhor do pior, deixar na escuridão a luz e lançar luz sobre o breu. O delinqüente, mentiroso compulsivo, megalômano e marginal por convicção, que não dá a menor pelota para grana, como se verifica em umja das seqüências finais, mexe com nossos brios, aterroriza, provoca risos nervosos de pavor, mas também incita ao pensamento. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, de acordo com o que cantou Caetano Veloso, e o Coringa de Ledger, que desbancou com uma sutileza de paquiderme o do arrogante Jack Nicholson - que aconselhou o novato a desistir de antagonistar o filme - em Batman (1989), de Tim Burton, passa exatamente essa mensagem. Todos precisamos saber controlar a loucura avassaladora e manter presos nossos demônios. Porém o Coringa é a antítese disso. O Coringa não é nem quer ser são, bonitinho, perfumado, agradável. Ele quer e faz questão é de ser lunático. Heath Ledger entendeu e deu conta do recado. Em um mundo cada vez mais eivado com a hipocrisia do politicamente correto, é um refrigério encontrar na manifestação artística um personagem tão libertador, cínico e senhor de si, bem como um ator á altura de incorporá-lo. A grande lástima é constatar que esse foi o derradeiro registro profissional de Ledger, morto aos 28 anos em janeiro último, de overdose acidental de medicamentos. Já começa a fazer falta.

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