Sunday, September 14, 2008
Conversa com a experiência
Prestes a completar 60 anos de carreira, o jornalista Villas Bôas-Corrêa ensina -e emociona- em Conversa com a memória, obra em que desvela os bastidores da política no Brasil
A política brasileira, assim com o futebol, é uma caixinha de surpresas, só decifrável por quem se dispõe a escarafunchar o que não se quer pôr à luz, deixando que os fatos mostrem seu quê de escandalosos, não a maneira de propagá-los. Villas Bôas-Corrêa destrincha, nas quase 300 páginas do excelente Conversa com a memória, as estranhas de seu mais de meio século de ofício (já são exatos 59 anos e dez meses agora), sem respeitar o auto-conselho de menino travesso prestes a fazer arte da introdução: “Não bula com a memória que está quieta. Cutucada e desperta, ela não pára de falar”. Bôas-Corrêa provoca as lembranças e delas brotam relatos brilhantes, nos quais esmiúça a passagem pelos gabinetes dos mais prestigiosos homens públicos da República do tempo em que exerceram o poder como Getúlio Vargas, João Goulart, Eurico Gaspar Dutra, José de Ribamar Sarney, Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso. Jornalista profissional desde 27 de novembro de 1948, Bôas-Corrêa, com narrativa leve e despretensiosa, ajuda o leitor comum e o pesquisador a compreender as desventuras a que se lançam governantes nos mais abrangentes períodos da História do Brasil, seu modus operandi, as idiossincrasias e excentricidades de cada um, o que por sua vez permitem entender como foi e porque está dessa maneira o país, espelhando-se sabiamente em mestres da crônica política deste Pindorama, oficializado como a terra da felicidade pelos escritos primevos de Caminha, a exemplo de Carlos Castello Branco, o Castellinho, titular, entre outros, de antológica coluna no Jornal do Brasil, até o passamento, em 1º de julho de 1993.
Em peregrinações diárias por Câmara e Senado dos tempos longínquos do Distrito Federal carioca, Villas Bôas-Corrêa por 12 anos observou de perto o desenvolvimento do embrião do que viria a ser o Brasil como o conhecemos hoje: UDN, rediviva em partidos de oposição que, incapazes de assumir novo lugar no cenário, contentam-se em desempenhar humilhante função de colaboradores, como o PSDB de cinco anos para cá; e chefes-de-Estado que personalizam de maneira tão constrangedora quanto eficaz o São Sebastião, o Messias, o Salvador, o pai dos pobres e de todo o povo brasileiro. Qualquer semelhança entre Vargas e Luiz Inácio Lula da Silva não é mera coincidência.
Jornalismo pode ser opinativo sim, e muitas vezes deve sê-lo, como o próprio autor deixa evidente na publicação. Mas quando a atividade jornalística antes mesmo de informar visava manifestar pontos de vista, tendências e correntes de pensamento e, claro, impô-las sub-repticiamente, Villas Bôas-Corrêa provou que onde havia profunda capacidade de análise, tirocínio, habilidade e confiança no próprio taco existia maior possibilidade de persuasão, por intermédio de opiniões —por que não?— sedimentadas em sensibilidade e longo alcance intelectual. Só comemoram seis decênios de uma carreira bem-sucedida aqueles que podem se valer de tais predicados e é isso o que se depreende de cada linha do livro.
Em peregrinações diárias por Câmara e Senado dos tempos longínquos do Distrito Federal carioca, Villas Bôas-Corrêa por 12 anos observou de perto o desenvolvimento do embrião do que viria a ser o Brasil como o conhecemos hoje: UDN, rediviva em partidos de oposição que, incapazes de assumir novo lugar no cenário, contentam-se em desempenhar humilhante função de colaboradores, como o PSDB de cinco anos para cá; e chefes-de-Estado que personalizam de maneira tão constrangedora quanto eficaz o São Sebastião, o Messias, o Salvador, o pai dos pobres e de todo o povo brasileiro. Qualquer semelhança entre Vargas e Luiz Inácio Lula da Silva não é mera coincidência.
Jornalismo pode ser opinativo sim, e muitas vezes deve sê-lo, como o próprio autor deixa evidente na publicação. Mas quando a atividade jornalística antes mesmo de informar visava manifestar pontos de vista, tendências e correntes de pensamento e, claro, impô-las sub-repticiamente, Villas Bôas-Corrêa provou que onde havia profunda capacidade de análise, tirocínio, habilidade e confiança no próprio taco existia maior possibilidade de persuasão, por intermédio de opiniões —por que não?— sedimentadas em sensibilidade e longo alcance intelectual. Só comemoram seis decênios de uma carreira bem-sucedida aqueles que podem se valer de tais predicados e é isso o que se depreende de cada linha do livro.
