Sunday, October 12, 2008

 

O espetáculo da política

Como a arte ajuda a se compreender o incompreensível

Nunca antes na história do Brasil uma campanha eleitoral foi devassada de maneira tão reveladora. Este seria o slogan publicitário perfeito para definir o longa-metragem Entreatos, de João Moreira Salles. Com o filme, Salles mostra-se disposto —e até obstinado— a registrar tudo o que se levou a público e, principalmente, o que ficaria restrito apenas aos bastidores, da empreitada de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República, uma das mais disputadas e passionais da história recente da democracia brasileira.

O diretor empenhou todas as fichas em uma aposta pretensiosa, ainda que fosse um milionário filho de banqueiro, quando resolveu dedicar-se a projeto ao mesmo tempo tão suntuoso e etéreo: Lula poderia ter perdido pela quarta vez consecutiva a possibilidade de ostentar a faixa presidencial diante de, como se viu no dia da posse, multidão ensandecida e algo incrédula e o filme talvez se reduzisse a não mais que sucata. Mas o peão, como o próprio Lula se denominava, enfim tinha alcançado a meta que perseguira pela vida inteira. E Salles quebrou a banca.

A obra ganha contornos saborosamente engraçados e inovadores, como quando ao exibir as (in)confidências de Luiz Inácio: ao contar um pouco da rotina de metalúrgico em São Bernardo do Campo, grande São Paulo, fez questão de ressaltar que não sentia um “milímetro” de saudade dos tempos de chão de fábrica, à qual retornava depois do almoço alguns graus etílicos mais quente, graças às talagadas de cachaça que serviam de aperitivo para a refeição, que compunha um prato “do tamanho do Pão de Açúcar. Lula fala também das condições insalubres do ambiente de trabalho, revestido por “telhas de Brasilit”, que ferviam e às três da tarde provocavam nos industriários um calor sufocante e um rio de suor que ensopava todo o uniforme. Tudo, de acordo com ele, assistido por patrões sadicamente contentes.

Hoje, o patrão é Lula, como deixa explicitamente claro, com a truculência e a arrogância habituais, ao dar ordens como plantar nos jardins do Palácio da Alvorada flores vermelhas em feitio de estrela, símbolo do partido dele, e de declarar que fuma no gabinete do Planalto porque ali “eu é que mando”, além das disposições que todos conhecem, sabem que partiram dele mesmo, mas nunca, lulianamente, conseguiram ser-lhe atribuídas. Robert Musil (1880-1942), no fabuloso romance O homem sem qualidades, fala de um indivíduo, o carpinteiro Moosbrugger, que se caracteriza por não apenas ter uma saúde reduzida, mas também uma doença reduzida, transitando entre a imbecilidade completa e a mais ensolarada saúde mental. Entreatos é um belo filme. Mas o crédito de Entreatos é de Robert Musil.

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