Thursday, January 01, 2009

 

Curto e grosso & desterro

Já estou de volta, antes mesmo do que imaginava, para ser franco. Penso ser um bom presságio ter algo a publicar neste espaço virtual logo no primeiro dia do ano: dois textos, de uma tacada só. Que assim seja. O primeiro é um haicai, gênero poético de origem japonesa, descomedidamente sucinto, popularizado no Brasil a partir do início do século XX. Em seguida, vem um poema mais extenso, de 26 versos. Boa leitura e que 2009 nos seja leve.


Des-tino

Não posso crer
Que você jogue tudo fora assim
E abdique de você e de mim.



A caminho de lugar nenhum

Perdido em um torvelinho
De pensamentos ruidosos
Que minam-me o sono
E a saúde e me aproximam da beleza.

Escrevo estas nove ou dez
Dúzias de palavras que o vento
Há de carregar para longe,
Para bem longe de mim
E que depois de rodar
O mundo inteiro, como eu um dia farei,
Voltam para mim, como as aves de arribação
Regressam ao Velho Mundo,
Sua verdadeira casa.

Ruínas sem tradição me circundam
Com seus meninos a gritar
Em brinquedos e histerias
Enquanto cães raivosos

Vindos dos infernos mais escaldantes
Ladram furiosos como a chuva
Que estronda no telhado fino.
Sigo. Paro.
Exilado em minha própria vida,
Abrigado em castelos
Portentosos feitos de nuvem,
Prisioneiro do mundo que criei,
Erijo monumentos em ouro aos que desfiguram.

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