Tuesday, March 31, 2009

 

Rumo ao século XX?

A obrigatoriedade de certificação acadêmica para o exercício da atividade jornalística é um atraso maior do que se imagina


O próximo julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF), hoje, 1º de abril, pode tornar-se histórico, a depender do que entendam os ministros quanto à necessidade de formação acadêmica em jornalismo para a atuação profissional em órgãos de imprensa. Se os magistrados sentenciarem o fim da exigência do diploma para que se desempenhe o ofício de jornalista, de fato a História do Brasil sairá enaltecida. No caso de se dar oposto, o que se vão conjugar são a vergonha e o obscurantismo.

A imposição do diploma para conquistar posto em empresas jornalísticas no Brasil é uma excrescência, que remonta aos primórdios do regime militar, quando também brotou das cabeças mais brilhantes da intelligentsia de então a idéia de implantar no país lei para cercear, de modo absoluta e incontestavelmente legal, o fazer jornalístico: a lei nº 5250, de 9 de fevereiro de 1967, a famosa Lei de Imprensa.

Mais de quarenta anos de um entulho que, oh! ironia, foram redivivos justamente por aqueles que deveriam zelar pelo progresso e pela seriedade do jornalismo: os próprios jornalistas. Mas, felizmente, só pelos piores. Apenas pelos que em anos de carreira nunca conseguiram, por mais que tenham tentado, um lugarzinho sequer na grande imprensa — tampouco na imprensa grande — ou, se o granjearam, foram de lá enxotados por mentir, pagar por informações, traficar influência, caluniar, difamar, injuriar e por ser somente medíocre mesmo, afinal, ninguém gosta de sustentar vagabundo e ainda há os jornais, televisões, rádios e agências de notícias que na se deixam patrulhar pelo politicamente correto e valorizam os talentosos em detrimento dos bonzinhos. O último refúgio da canalha, composta de detentores do canudo (ou do contrário, não ficaria pulando de faculdade em faculdade atrás de cooptar e aliciar os incautos) é o sindicalismo, no qual ganham sem ter de prestar contas como se deve e sem a presença constante do espectro do desemprego, que vive a assombrar os que têm sede por ser melhor dia após dia, na atual conjuntura ainda mais, e pagam suas contas valendo-se só do seu trabalho e não do proselitismo vigarista das entidades de classe.

Toda essa questão nada mais é que recalque de uma gente cabotina, rombuda, ultrapassada. E não me venham dizer que eles prezam pela catiguria, porque ter um certificado seja do que for não é nem será em tempo algum garantia de coisa nenhuma. Nem deve ser. O destino de maus profissionais de imprensa, ou quaisquer outros, deve ser o olho da rua, tenham ou não passado pelos bancos de uma universidade ao cursar jornalismo ou corte-e-costura. Uma das verdades que ouso apontar nesse arrazoado é que os jornalistas cuja formação é claudicante estão tremendo nas bases, amedrontados mesmo com a possibilidade de perder seus empregos para profissionais que julgam inferiores, sendo que inferiores são eles. Se não vejamos: o que é mais legítimo, para tornar à área de trabalho que listei junto ao jornalismo na quarta oração deste parágrafo, uma ex-modelo ter um quadro em que discorre sobre moda em um programa de televisão ou mesmo ancorar uma tração voltada a este segmento ou assumir essa posição um(a) jornalista de moda, muitas das mulheres gordotas (Freud explica), formado(a) comme il faut, que poderia muito bem ter frequentado o curso de filosofia, por exemplo, mas que preferiu comunicação social, não pelo fato de o curso apresentar currículo mais abrangente, e sim porque as pessoas nesse ambiente são mais hype, mais descoladas? Tenham dó.

A quem interessa que o diploma torne-se obrigatório? Não vejo, nem nunca vi, jornalistas nos grandes veículos de comunicação sustentarem esse argumento. Pelo contrário; para eles, seguros que são de sua habilidade profissional, quanto mais pluralidade, melhor. A obrigatoriedade do diploma só desperta a simpatia dos ruins, dos sindicalistas pelegos, que querem varrer do jornalismo de uma vez por todas a liberdade de pensamento para aparelhar a imprensa conforme sua ideologia rastaquera. Enfim, essa é uma questão política. Trata-se de um projeto de poder, que vai soçobrar porque, ao cabo, quem controla o jornalismo é a opinião pública, é o próprio povo, e é também o mercado, pois nada pior que para uma empresa jornalística que morrer à míngua, sem credibilidade, sem leitores ou audiência e sem anunciantes por conseguinte.

Essa contenda, que de tão ingênua mais se assemelha à peleja do diabo com o dono do Céu, define bem o zeitgeist, o espírito do tempo em que vivemos. A coisa toda é tão ridícula, mas tão ridícula, que adquire força inacreditável. De maneira bastante pungente: parece que quem não se alinha à weltanschauung, à visão de mundo da maioria, pelo menos da maioria onde atua, deve ser eliminado. Não me coaduno com a weltanschauung de quem está no comando, no comando mesmo, por essa razão especificamente, por serem poderosos. Se houver afinidade intelectual, harmonia no que concerne ao modo de pensar, conjunção de opiniões, ótimo; se nenhuma dessas coisas existir, nada feito. E nem adianta jogar charme, oferecer leite com biscoito, dar o espaço mais macio do sofá, coisa alguma. Se sou assim com a diretoria, imagine com quem ainda só quer chegar lá.

Oscar Wilde, escritor e dramaturgo inglês, comparava a imprensa aos métodos medievais de tortura. Teve seus motivos (pesquisem a respeito). Contudo, Wilde viveu entre 1854 e 1900. Desde então, o jornalismo progrediu muito, em todo o mundo, acreditem, e boa parte desse avanço deve-se a profissionais que não cursaram jornalismo ou mesmo comunicação social, a exemplo de Mark Twain, John Hersey, Jon Lee Anderson, Äsne Seierstad, Rubem Braga, Evandro Carlos de Andrade, Roberto Civita, entre outros, para ser sucinto. Os profissionais que são academicamente jornalistas, todavia, como William Waack, Reinaldo Azevedo, Leda Nagle, Celso Freitas, William Bonner, editor-chefe do mais assistido telejornal do país (o que não exime de nenhuma responsabilidade, aliás, é exatamente o inverso: se Bonner pisar feio na bola, o que penso ser difícil, embora não impossível, deve ceder a cadeira a alguém que não tenha nunca cometido erro semelhante), outrossim, são dignos de toda a confiança e admiração — admiração, não servilismo, alienado e boboca —, em especial dos neófitos que se lançam nessa maravilhosa mistura de criação estética, opinião e formação do pensamento que é a arte de sujar os sapatos.

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